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A Merdificação da Universidade
E como os DDTs são bons nisto!
O termo merdificação é a tradução livre do termo anglo-saxónico enshittification, introduzido pelo escritor e ativista Cory Doctorow para descrever a situação atual usada pelas grandes empresas de prestação de serviços (Internet, redes sociais, redes de entretenimento, etc). Acredita que as plataformas procuram o lucro, não a qualidade [4]. Portanto, após uma fase inicial de lançamento de serviços de grande qualidade, as empresas são geridas de forma que os serviços vão-se degradando, os clientes vão sendo menos bem servidos, mas o lucro gerado vai aumentando.
A merdificação das universidades descreve a degradação do ensino superior devido a semelhantes lógicas neoliberais. Este fenómeno manifesta-se pela transformação das universidades em empresas de serviços, onde os estudantes são tratados como clientes que exigem um diploma e os professores são sobrecarregados com burocracia e exigências de publicação de artigos em massa, em detrimento da verdadeira qualidade pedagógica e investigação [1, 2]. Também os professores são fortemente incentivados à captação de avultadas quantias de financiamento (competitivo ou não), com o objetivo de contribuírem com os overheads dessas iniciativas para o deficiente orçamento público. Os DDTs vão adaptando modelos de gestão cada vez mais lucrativos, e.g. Técnico+.
De acordo com [1, 3], os principais pilares deste processo incluem:
- O Modelo Credencialista: Os alunos encaram o curso como um produto transacionável. O objetivo principal passou a ser a obtenção do canudo (credencial) para o mercado de trabalho, em vez da apropriação profunda de conhecimento crítico e científico.
- Burocratização e Métricas: A academia passou a focar-se na produção em massa de artigos científicos e na caça a financiamentos, forçando os docentes a priorizar a quantidade sobre a originalidade ou a relevância social e científica.
- Precarização do Corpo Docente: A contratação de investigadores sob condições precárias, o aumento do número de PDECs no Técnico e a criação de uma “fábrica de publicações” retiram tempo e dignidade ao trabalho intelectual artesanal.
Este debate tem sido discutido na academia portuguesa, refletindo a preocupação global com a perda de autonomia e o fim do propósito humanista das universidades.
Esta degradação manifesta-se em três pilares fundamentais do ecossistema académico.
1. A Publicação Científica
A comunicação científica deixou progressivamente de funcionar como uma economia de dádiva intelectual, baseada na partilha de conhecimento e no avanço coletivo da Ciência, para se transformar numa indústria extremamente lucrativa, cujas margens de lucro rivalizam com as das grandes empresas tecnológicas.
- Mercantilização do valor científico: o mérito intelectual e a relevância científica são cada vez mais subordinados à lógica de mercado, à capacidade de gerar receitas e à visibilidade comercial.
- Pagar para publicar e proliferação de revistas predatórias: observa-se um crescimento contínuo das taxas de processamento de artigos (Article Processing Charges – APCs), tanto em revistas de acesso aberto como em muitas publicações convencionais, obrigando os investigadores a suportar custos frequentemente elevados para divulgarem o seu trabalho. Em paralelo, multiplicam-se revistas predatórias que exploram a pressão para publicar, oferecendo processos editoriais de reduzido ou inexistente rigor científico.
- Erosão do processo de revisão por pares: o volume crescente de artigos submetidos, amplificado pela existência de «fábricas de artigos» (paper mills) e pelo uso indiscriminado de ferramentas de inteligência artificial generativa, sobrecarrega o sistema de revisão por pares, reduzindo a sua eficácia e comprometendo a integridade da produção científica.
2. A Experiência Estudantil
As universidades tendem cada vez mais a funcionar como prestadores de serviços corporativos, tratando os estudantes como clientes e os cursos como produtos transacionáveis, frequentemente em detrimento da qualidade formativa.
- Aumento de custos e redução de serviços: os estudantes suportam propinas e encargos cada vez mais elevados, recebendo em contrapartida um acompanhamento mais reduzido (veja-se no NME, a redução do número de horas de contacto), com turmas massificadas, menor interação individualizada e crescente dependência de docentes convidados ou especialmente contratados (PDECs), precários ou insuficientemente remunerados.
- Microcredenciais e ensino digital de baixo custo: programas assíncronos, cursos de curta duração e microcredenciais são frequentemente promovidos como novas fontes de receita de elevada margem financeira (e.g. Técnico+), substituindo progressivamente percursos formativos longos, integrados e intelectualmente exigentes.
3. A Degradação das Condições de Trabalho dos Docentes e Investigadores
Os académicos enfrentam uma crescente pressão operacional e burocrática, que desvia recursos e tempo das suas missões fundamentais de ensinar, investigar e produzir conhecimento original.
- Empolamento administrativo: a expansão contínua das estruturas administrativas, dos mecanismos de controlo e dos requisitos regulamentares consome uma parcela crescente do tempo dos docentes e investigadores, ao mesmo tempo que aumenta significativamente os custos institucionais.
- A tirania das métricas do «publicar ou perecer»: a normalização de modelos de avaliação baseados em indicadores quantitativos e rankings bibliométricos incentiva a produção em massa de publicações, favorecendo a quantidade em detrimento da qualidade, da originalidade e da relevância científica ou social do trabalho desenvolvido. O RADDIST é um bom exemplo dessa abordagem.
- Trabalho não remunerado: os académicos oferecem gratuitamente enormes quantidades de trabalho às editoras comerciais, desempenhando simultaneamente os papéis de autores, revisores e editores. Paradoxalmente, as próprias universidades acabam depois por pagar valores elevados para aceder, através de subscrições e licenças, aos resultados desse trabalho produzido sem remuneração.
Como Contrariar esta Tendência
A recuperação da missão fundamental da universidade exige mudanças profundas, tanto a nível institucional como global. Entre as medidas possíveis destacam-se a reforma dos sistemas de avaliação da investigação : i) privilegiar qualidade, impacto e originalidade em detrimento de meras contagens bibliométricas, ii) apoiar modelos de publicação liderados pela comunidade académica, como o Acesso Aberto Diamante (Diamond Open Access), e iii) forçar a contenção do crescimento desproporcionado das estruturas administrativas e dos seus custos.
Em última análise, a universidade corre o risco de se transformar numa organização paradoxal: os estudantes pagam para aprender menos, os profissionais que pretendem formação pos-graduada pagam mais para aprender menos, os investigadores publicam mais para descobrir menos, os docentes trabalham mais para ensinar menos e as instituições administram-se cada vez mais para produzir cada vez menos conhecimento significativo. É precisamente este processo de merdificação do ensino superior que ameaça converter a universidade de uma comunidade de saber e pensamento crítico numa mera fábrica de credenciais, métricas e procedimentos administrativos.
Paulo Oliveira
16 de junho de 2026
Referências:
[1] Paulo Castro Seixas, Credencialistas e merdificação do ensino superior, Observador, 11 de junho de 2026, in https://observador.pt/opiniao/credencialistas-e-merdificacao-do-ensino-superior/
[2] João Aldeia, O animal laborans académico e o fim da universidade, 31 de julho de 2025, in https://www.barometro.com.pt/2025/07/31/o-animal-laborans-academico-e-o-fim-da-universidade/
[3] Martina Linnenluecke, Carl Rhodes, The 5 stages of the ‘enshittification’ of academic publishing, 6 de janeiro de 2026, in https://theconversation.com/the-5-stages-of-the-enshittification-of-academic-publishing-269714
[4] Claudia Carvalho Silva, Merdificação” em curso: porque é que a Internet está pior, 19 de Novembro de 2025, in https://www.publico.pt/2025/11/19/p3/entrevista/merdificacao-curso-internet-pior-2155061
O Homo Prompticus
ou
Produzir Engenheiros Funcionais com a Autonomia Cognitiva de uma Torradeira Inteligente
Durante séculos, a humanidade acreditou ingenuamente que a escola servia para ensinar jovens a pensar. Era uma visão romântica, antiquada e profundamente ineficiente. Felizmente, chegámos à era moderna, onde um estudante pode atravessar o ensino secundário, concluir uma licenciatura, fazer um mestrado e talvez até um doutoramento, sem nunca sofrer o incómodo medieval de ter uma ideia própria.
A Inteligência Artificial veio democratizar algo absolutamente extraordinário: a possibilidade de parecer inteligente sem os custos energéticos associados ao pensamento.
O aluno contemporâneo já não precisa:
- de compreender,
- de estudar,
- de memorizar,
- de relacionar conceitos,
- nem sequer de ler o que entrega.
Precisa apenas de dominar uma sofisticada competência de engenharia contemporânea: escrever “faz-me um resumo disto em tom académico mas acessível.” E convenhamos isto é progresso civilizacional.
No passado, um estudante de engenharia perdia noites a tentar perceber porque divergia um controlador, porque explodia uma simulação numérica ou porque o modelo físico violava causalidade básica. Hoje, graças à IA, pode gerar instantaneamente 14 páginas de relatório impecavelmente formatado, com introdução, revisão bibliográfica e até conclusões falsas mas redigidas com confiança absoluta. O estudante não percebe rigorosamente nada daquilo que entregou. Mas também sejamos honestos, muitos orientadores já não leem muito além do resumo executivo e da qualidade das figuras.
Criou-se assim um ecossistema académico de enorme eficiência:
- a IA escreve trabalhos que ninguém lê;
- para avaliações feitas por docentes exaustos;
- em instituições onde o PowerPoint vale mais que a substância;
- e onde o verdadeiro indicador de excelência científica é o alinhamento justificado do texto.
A beleza do sistema está precisamente nesta “economia circular” perfeita.
Os efeitos cognitivos começam cedo. O jovem estudante, habituado a consultar IA para tudo, desenvolve gradualmente uma relação muito delicada com o próprio cérebro: evita usá-lo para não o cansar.
Porque pensar dói.
Pensar implica silêncio, frustração, dúvida, reformulação, erro e outras atividades profundamente incompatíveis com o ritmo moderno do TikTok cognitivo. A IA surge então como uma espécie de exoesqueleto intelectual para o aluno contemporâneo. Um aluno que já não quer saber a resposta; quer apenas evitar o desconforto entre a pergunta e a resposta.
E assim nasce a nova criatura académica do século XXI: o Homo Prompticus.
O Homo Prompticus possui características fascinantes: i) Escreve fluentemente sobre temas que desconhece, mas também não se preocupa; ii) Usa expressões como “paradigma epistemológico multidisciplinar” sem pestanejar. Não sabe extamente o que quer dizer mas soa bem; iii) Consegue produzir 400 linhas de código MATLAB que não compreende nem sabe modificar o nome de uma variável; e iv) entra em colapso psicológico se o Wi-Fi falha durante mais de 3 minutos.
Sem IA por perto, a criatura torna-se vulnerável. Observa-se frequentemente:
- olhar vazio;
- tremores ligeiros perante folhas em branco;
- incapacidade de iniciar um parágrafo sem assistência algorítmica;
- e episódios de ansiedade aguda quando obrigada a “explicar por palavras suas.”
Alguns estudantes chegam ao ponto de perguntar:
— Professor, no exame vamos poder usar pensamento autónomo assistido?
As universidades, naturalmente, fingem que nada disto está a acontecer. Como qualquer instituição madura, responderam à maior revolução educacional em décadas através da criação de:
- uma comissão,
- três grupos de trabalho,
- um regulamento provisório,
- um seminário sobre ética,
- e um PDF institucional, na cor da moda, intitulado “IA: desafios e oportunidades.”
Problema resolvido!
Entretanto, os exames continuam desenhados para um mundo onde se assumia, de forma ingénua, que o estudante era efetivamente o autor dos trabalhos que submetia. A situação atingiu níveis tão sofisticados que hoje há casos em que: a) a IA escreve o relatório do aluno; b) o professor usa IA para corrigir; c) o coordenador usa IA para gerar feedback institucional; e d) o estudante usa IA para interpretar o feedback da IA do professor.
A única entidade completamente excluída do processo é o cérebro humano.
Mas talvez o efeito mais cómico — e simultaneamente mais trágico — seja a destruição progressiva da autoconfiança intelectual. O estudante deixa de confiar na própria capacidade de raciocinar. Mesmo quando sabe, já não acredita que sabe sem validação algorítmica. Forma-se assim uma geração inteira de jovens altamente certificados mas cognitivamente terceirizados.
São capazes de:
- gerar apresentações brilhantes,
- criar gráficos magníficos,
- produzir abstracts impecáveis,
- usar palavras como “framework”, “robustez” e “sustentabilidade” em sequência,
mas entram em sofrimento existencial profundo quando alguém lhes faz uma pergunta oral inesperada.
O futuro profissional promete momentos deliciosos.
Imagine-se:
- um engenheiro incapaz de diagnosticar uma falha sem consultar o chatbot;
- um médico em pânico porque o hospital ficou sem internet;
- um gestor que precisa de IA para escrever “bom dia” em tom assertivo;
- ou um doutorado em controlo incapaz de explicar intuitivamente o significado físico de um pólo dominante.
Será uma civilização magnífica: hiperconectada, ultra assistida, tecnologicamente brilhante… e intelectualmente incapaz de montar uma linha de raciocínio contínua sem autocomplete semântico. No fundo, a IA não destruirá necessariamente a inteligência humana. Limitar-se-á talvez a revelar quantas pessoas estavam apenas à espera de autorização tecnológica para parar de pensar de vez.
Paulo Oliveira
27 de maio de 2026
A Revolução Cruzozoica
ou
Breve História da Ascensão dos DDTs
Há instituições que evoluem lentamente, como velhos mosteiros medievais, onde cada alteração estatutária demora décadas e muitos pareceres jurídicos. E depois há o IST, esse laboratório político-administrativo onde as mutações organizacionais por vezes ocorrem com a velocidade de uma reação nuclear em cadeia, moderadas só por café e longas reuniões.
Os eventos relevantes para este relato começaram em 2007, com a publicação do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, RJIES[1]. Esse artefacto legislativo que prometia modernizar a universidade portuguesa e que, na prática, abriu um fascinante período de guerras tribais académicas, alianças improváveis e movimentos tectónicos de poder. Na prática, abriu uma luta pelo poder académico, com recurso a novos estatutos, eleições, órgãos, regulamentos e subtilezas maquiavélicas.
Na altura, Carlos Matos Ferreira era o presidente do IST. Homem de convicções firmes e fé inabalável numa possível passagem do IST a Fundação, chegou mesmo a tomar posição pública e organizar as hostes. Ao seu lado, o centrão mais progressista, mais yuppie[2]. E de certeza não alheio ao guito que estava a fluir da CEE. Do outro, os ultra-conservadores dos extremos, numa aliança estranha, mas com vontade de manter o antigo modelo com ajustes mínimos.
A decisão de ir para Fundação, de acordo com os regulamentos, exigia consulta em votação no Plenário do CC, a que pertenciam na altura todos os doutorados. Um momento democrático. Dos que já não se veem agora, mas que resultou numa luta fraticida. O problema das consultas democráticas, em voto secreto, é que por vezes, as massas respondem de forma inconveniente. Naquele caso, o resultado foi de 276 votos contra a Fundação e 258 a favor[3]. Dada a sua posição explicita, e derrotada, o PIST pediu um voto de confiança ao Plenário do Conselho Científico, que lhe foi dado com resultados expressivos de SIM: 382 – NÃO: 88. Por isso, emendada a mão, Carlos Matos Ferreira veio a completar o mandato.
Ora, há poucas criaturas mais perigosas na ecologia universitária do que um grupo de professores contrariados depois de perderem uma votação estratégica. Foi provavelmente aqui que nasceu o embrião do fenómeno sociológico mais interessante da fauna técnico-administrativa moderna: os DDTs — Donos Disto Tudo. Para formar carácter, os desgostos para os DDTs ainda não tinham terminado. Confirmou-se a opinião desfavorável a grandes mudanças nos resultados das eleições para a Assembleia Estatutária da UTL, efetuadas a 29 de novembro de 2007.
| Resultados e Candidatos Eleitos | |
| Lista A – 640 votos | Lista T – 389 votos |
| Por uma Universidade: Espaço de liberdade, criação e cooperação | Qualidade, Identidade, Autonomia |
| 1 – João Teixeira de Freitas (IST) | 1 – Carlos Matos Ferreira (IST) |
| 2 – Carlos Mota Soares (IST) | 2 – Antonio Ascensão Mendonça (ISEG) |
| 3 – João Santos Pereira (ISA) | 3 – Pedro Lourtie (IST) |
| 4 – Nuno Valério (ISEG) | 4 – Joaquim Sampaio Cabral (IST) |
| 5 – Francisco Lemos (IST) | |
| 6 – Leonor Moniz Pereira (FMH) | |
| 7 – Rui Caldeira (FMV) | |
| 8 – Madalena C. Matos (FA) | |
| Mandatário – José Sá da Costa | Mandatário – Afonso Barbosa |
Os DDTs não apareceram portanto abruptamente. Formam-se lentamente, como estruturas cristalinas em solução supersaturada de ambição institucional. Primeiro foi o trauma fundador. Depois uma narrativa gorada e o quase isolamento dos yuppies na UTL. Depois um sentimento de missão histórica. Finalmente aparecem os manifestos e a necessidade de tomar as rédeas do IST. A derrota da Fundação foi, portanto, o equivalente académico ao Tratado de Versalhes: uma humilhação que produziu uma geração politicamente organizada, disciplinada e profundamente convencida de que o problema nunca fora a ideia — apenas o “povo” que votara errado.
Seguiu-se então um período de reorganização estratégica. Enquanto uns ainda discutiam princípios universitários, outros já percebiam algo essencial da ecologia do poder académico: quem controla órgãos, regulamentos e estatutos, controla o futuro. A verdadeira investigação científica passou então para uma nova área emergente: Mecânica dos Fluidos Institucionais Aplicada à Captura de Órgãos.
E eis que entra em cena António Cruz Serra, que era Presidente-Adjunto para os Assuntos Administrativos naquele período conturbado, mas que apresentou demissão após a segunda derrota. Veio-se a perceber depois que era para preparar a candidatura a Presidente do IST em eleições que se viriam a realizar em abril de 2009. Tinha um CV respeitável, sólido e cientificamente irrepreensível. Professor Catedrático, especialista em instrumentação, atividade internacional, investigação, liderança científica. Na juventude teve o contacto com líderes fortes[4]. Mas a sátira académica vive precisamente deste contraste magnífico entre a solenidade curricular e a realidade subterrânea da política universitária. Porque enquanto os comuns do mortais viam “instrumentação eletrónica,” os DDTs viam algo mais profundo: instrumentalização organizacional. Cruz Serra percebeu cedo uma verdade fundamental sobre o IST: a física das instituições não obedece às leis clássicas. Um professor sozinho move-se lentamente. Um grupo organizado com controlo de órgãos colegiais pode alterar profundamente a geometria do espaço-tempo muito rapidamente.
Prepararam-se as primeiras eleições para os órgãos do IST, à luz dos novos estatutos. A Lista T começa então a consolidar-se. E com que mote extraordinário: “Uma Visão, Uma Liderança, Um Futuro.” É impossível não admirar a subtileza semântica. Não era apenas uma lista eleitoral. Era praticamente uma religião civil tecnocrática. A palavra “visão” aparecia com frequência suficiente para fazer suspeitar que alguns membros recebiam revelações estatutárias em sonhos.
Enquanto isso, do outro lado, continua a Lista A, dos mais conservadores em aliança consolidada: “Espaço de liberdade, criação e cooperação.” Uma formulação poeticamente bela. Também completamente incompatível com ganhar eleições em ambientes administrativos complexos. Porque na selva universitária moderna, “liberdade e cooperação” competem mal contra “liderança e futuro.” A primeira soa a assembleia cultural. A segunda soa a controlo do orçamento. E então chegou 2009. O momento fundador da era Cruzozoica.
| Resultados e Candidatos Eleitos | |
| Conselho de Escola | |
| Lista A – 261 votos | Lista T – 389 votos |
| 1 – Sá da Costa | 1 – António Cruz Serra |
| 2 – João Cunha Serra | 2 – Arlindo Oliveira |
| 3 – Emílio Ribeiro | 3 – Eduardo Pereira |
| 4 – Carlos Alves | 4 – Manuel Freitas |
| 5 – Afonso Barbosa | |
| Conselho Científico – Presidente Paulo Martins | |
| Lista A – 243 votos | Lista B – 355 votos |
| Dinar Camotim | Amílcar Sernadas |
| Jorge Loureiro | Ana Paiva |
| Norberta Pinho | Ana Póvoa |
| Maria Emília da Encarnação Rosa | Helena Geirinhas Ramos |
| Maria Teresa de Sá e Melo | José Alberto Falcão de Campos |
| José Carlos Pereira | Luis Oliveira e Silva |
| Teresa Duarte | |
| Teresa Pena Stadler | |
| Tiago Domingos | |
| António Pinheiro | |
As listas B, da corrente fundacional gorada, conquistam todos os órgãos do IST, com os resultados e membros eleitos listados acima. António Cruz Serra é entronizado como Presidente do IST no Conselho de Escola de julho de 2009, com o resultado expressivo de 14 votos SIM, 0 votos NÃO. Uma unanimidade tão perfeita que quase parece produzida por software de otimização. Pensar-se-ia que para um mandato até 2013!
Os antropólogos institucionais do futuro estudarão este fenómeno com fascínio. Como foi possível gerar tamanha convergência? Cultura organizacional? Liderança inspiradora? Alinhamento estratégico? Ou simplesmente o eterno princípio universitário: “não arranjar problemas desnecessários antes da aposentação. E parece que há massa envolvida…” Segui-se depois aquilo que decidi chamar de Revolução Cruzozoica.
Iniciou-se com uma metamorfose quase darwiniana. O novo PIST – António Cruz Serra, primeiro defendeu a autonomização do IST face à UTL. Depois, mais tarde, defendeu o fortalecimento da Universidade Técnica de Lisboa, a que foi candidato, por coincidência cósmica, bem sucedido como Reitor em 2012. Do ponto de vista zoológico, foi a passagem do predador alfa do ecossistema local para superpredador do bioma completo. E o milagre administrativo continua com a ideia messianica da fusão da UTL com a Universidade de Lisboa, que se veio a concretizar em 2013[5].
O observador ingénuo poderia chamar-lhe contradição. Mas isso seria injusto. Os verdadeiros estrategas institucionais não têm posições fixas. Fazem revoluções. Neste caso a Cruzozoica. Têm vetores adaptativos de maximização de influência. É uma forma superior de inteligência administrativa: o princípio não é a autonomia nem a integração. O princípio é estar sempre no centro da próxima macro-estrutura de poder. E convenhamos: funcionou magnificamente. O Reitor da UTL António Cruz Serra acaba por ascender a Reitor da acabada de criar Universidade de Lisboa, para dois mandatos de 2013-2021. A extinção da UTL foi um dano colateral. Atrás deixou o seu Vice Presidente para a Gestão Administrativa e Financeira, Professor Arlindo Manuel Limede de Oliveira, que ascendeu a Presidente do IST.
É aqui que a narrativa ganha contornos quase mitológicos. Na prática, o IST transformava-se lentamente numa espécie de monarquia eletiva altamente sofisticada – A Dinastia Cruzozoica. Tudo é formalmente democrático mas gravitacionalmente inevitável. As eleições decorrem. Há listas. Há votos. Há passagem de pastas de “pais” (presidentes) para “filhos” (vice-presidentes) académicos. Mas paira no ar aquela sensação clássica de filme soviético em que toda a gente já conhece o resultado antes da contagem. Mas numa coisa todos concordam: os DDTs mantiveram-se nas posições chave nos últimos vinte anos.
E o futuro próximo?
Até aqui tratou-se do passado, baseado em datas, factos e resultados, com uma pitada de (boa?) sátira universitária.
Neste momento, uma nova revisão do RJIES está nas mãos do Presidente da República. Vem aí. Agora avancemos para a pura especulação.
Já começam a surgir as velhas perguntas a pairar nos corredores, nos cafés, nos grupos de WhatsApp e nos jantares discretos de facção:
Poderemos ter algum colega a fazer uma movimentação interessante?
Será que estamos perante o início de uma Segunda Revolução Cruzozoica?
Haverá já vice-presidentes em incubação tectónica?
E novas listas messiânicas?
E governança multinível?
Aparecerão a devido tempo novos documentos estratégicos com palavras como “excelência,” “agilidade,” “transformação,” “ecossistema,” etc.
Ninguém sabe de quem ou quando ou como. Esses mistérios são o sal e a pimenta da vida académica. Porque no IST esses segredos só se saberão à posteriori. Começarão com novas movimentações. Novas tensões entre o IST e a Universidade de Lisboa. Algum DDT, agora em estado larvar, aguarda este próximo ciclo eleitoral favorável, alimentando-se discretamente de comissões, grupos de trabalho, eventos académicos e pequenos-almoços estratégicos. Cena perfeita, quase Shakespeariana. Porque sugere que a academia portuguesa vive num ciclo eterno: muda o RJIES, mudam os estatutos, mudam os slogans, mudam os protagonistas… mas permanece imutável a grande constante termodinâmica universitária.
No fundo, a “Dinastia Cruzozoica” aparece aqui retratada como aquilo que talvez todas as grandes revoluções académicas são: o desejo irreprimível de controlar comissões, órgãos, regulamentos, narrativas e pequenas parcelas de poder administrativo uma luta épica travada por pessoas altamente inteligentes, altamente qualificadas… e extraordinariamente sensíveis ao acesso ao poder e ao controlo do pilim.
Numa sala bem isolada, alguém já estará provavelmente a preparar um documento intitulado: “reFundação do IST— Uma Visão, Uma Liderança, Um Futuro Sustentável, Disruptivo e Internacionalmente Competitivo na Era da IA.”
Paulo Oliveira
2 de junho de 2026
[1] Diário da República n.º 174/2007, Série I de 2007-09-10, Presidente da República – Aníbal Cavaco Silva, Primeiro Ministro – José Sócrates, Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior – José Mariano Gago.
[2] https://en.wikipedia.org/wiki/Yuppie
[3] https://www.esquerda.net/content/conselho-científico-do-ist-rejeita-fundação
[4] https://www.avante.pt/pt/2083/emfoco/127556/Incentivo-à-reflexão-à-intervenção-e-à-luta.htm
[5] Diário da República, 2.ª série — N.º 77 — 19 de abril de 2013.
Há legionella à solta. Ah!
(Epopeia hidro-burocrática em dois atos e várias purgas)
Houve recentemente, nesta mui vetusta instituição de ensino superior, uns pequenos episódios microbiológicos. Ocorrências discretas. Quase elegantes. Daquelas que se resolvem com meia dúzia de emails, umas quantas purgas diárias e uma dose industrial de tranquilização administrativa. Felizmente, sem consequências nefastas para as vidas dos humanos envolvidos. Mas com risco!
Tudo começou com um daqueles emails que representam o auge da literatura técnico-burocrática contemporânea: longos, polidos, cheios de “cumpre-me informar,” “níveis de risco baixos” e “salvaguarda da saúde pública,” escritos naquele tom clínico e paternalista que basicamente significava: “Existe uma bactéria potencialmente perigosa na água quente de uma parte do edifício, mas agradecemos que mantenham a calma e continuem a lavar as mãos com confiança institucional.”
Ficámos então a saber que, numa torneira algures na Torre Norte, foi detetada Legionella spp. Não muita. Apenas 50 ufc/L. Uma quantidade aparentemente suficientemente pequena para não justificar preocupação, mas suficientemente grande para justificar:
- purgas diárias de 10 minutos,
- contra-análises,
- aumento do cloro residual,
- substituição urgente do equipamento,
- e a pequena nota com explicação técnica de que o sistema operava a cerca de 35 ºC, precisamente a temperatura ideal para a proliferação da bactéria.
Mas atenção: risco baixo.
É extraordinária esta capacidade moderna de transformar qualquer problema potencialmente grave numa experiência quase zen através da terminologia regulamentar adequada. O Titanic, se tivesse a gestão académica contemporânea dos DDTs, provavelmente teria afundado ao som de um comunicado interno: “Importa salientar que a maioria das áreas do navio permanece seca, enquadrando-se o incidente num cenário de humidade localizada de baixo risco.”
Curiosamente, cerca de 48 horas antes do email oficial, um aluno já nos tinha alertado que havia um problema sério com a água. O que revela, uma vez mais, a superior sensibilidade e rapidez dos mensageiros humanos relativamente aos canais institucionais formais. Entretanto, confrontado o gestor do edifício em causa, em ambiente quase diplomático e acompanhado pelo orientador do aluno, surgiu um esclarecimento sucinto, daqueles que pertencem ao género literário “sim, houve qualquer coisa, mas está controlado.”
Pouco depois apareceu o grande email tranquilizador. Coincidência, certamente. Os utilizadores diretamente afetados foram avisados. Os restantes alunos, funcionários e docentes que usam por vezes o espaço? Esses… não!
E aqui reside uma das mais refinadas tradições administrativas desta casa: a gestão terapêutica da ignorância. Porque informar toda a comunidade poderia gerar preocupação. E preocupação gera perguntas. E perguntas geram reuniões. E reuniões podem gerar atas. E atas são perigosíssimas.
Assim, opta-se frequentemente pela mais eficiente metodologia de gestão emocional existente na administração moderna:
“Se ninguém souber, ninguém fica stressado.”
Uma abordagem quase quântica da saúde pública.
Mas o verdadeiro espanto surgiu esta semana, na sessão do Plenário do Conselho Científico, aquando da apresentação do Relatório de Sustentabilidade IST 2025. Um documento bem estruturado. Rico de informação. Muito verde. Muito “o futuro sustentável começa hoje.” Encontra-se em https://tecnico.ulisboa.pt/files/2026/05/relatorio-de-sustentabilidade-ist-2025.pdf

Apresentado pelo Vice-Presidente do IST para a Sustentabilidade e Infraestruturas, o relatório transpira aquele otimismo corporativo cor-de-rosa segundo o qual tudo está melhor, mais eficiente, mais resiliente e alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Até chegarmos ao consumo de água. 71 476 m³ em 2025, um aumento de 18% face ao ano anterior. Conforme acetato 6, reproduzido acima.
Uma pequena barragem hidrográfica académica.
Perante algum espanto geral, porque a sustentabilidade normalmente não inclui esvaziar aquíferos urbanos, surgiu então a explicação do DDT de serviço:
“Ah… foi o problema da Legionella na Torre Sul. Tivemos de esvaziar o depósito.”
E assim, com a serenidade burocrática de quem comenta uma avaria numa máquina de café, descobriu-se que se tinham despejado um total de cerca de 12 865 m³ de água por causa de um episódio sanitário de dimensões, aparentemente pouco compatíveis com o conceito original de “situação controlada.”
O Rádio Alcatifa não teve nenhum repórter no local. Eu não sabia até aquele momento. E vários outros colegas conselheiros também não. Mas provavelmente isso fazia parte da estratégia de bem-estar ocupacional. Porque nesta instituição os DDTs, afinal também Grandes Gestores da Tranquilidade Pública, protegem-nos cuidadosamente do fardo psicológico da informação. Não querem que saibamos demasiado. É para nosso bem. A ignorância, nesta filosofia de gestão, não é ausência de transparência. É ergonomia emocional. Há que reconhecer coerência ao modelo.
Nesta casa, o ar por vezes é irrespirável. Agora a água também não se aconselha!
Trabalhar começa a parecer uma atividade de sobrevivência ambiental progressivamente mais exigente.
Mas sempre com baixo risco!
Paulo Oliveira
21 de maio de 2026
O Gato Escondido com a Cauda de Fora
Ou
(Pedido de) Pacto de Silêncio na CV da CC (Queriam!)
Completou-se recentemente mais um ciclo anual do Processo de Valorização, neste caso o correspondente ao ano de 2026. Essa tradição académica que os DDTs querem que exista mas que não deixe rasto. E muito menos infringir o artigo 103º do RJIES.
Este ano utilizou-se pela primeira vez o inovador modelo, como vos dei conhecimento em outubro de 2025: os processos são primeiro apreciados na mística Comissão de Vagas do CC (CV do CC), esse espaço quase esotérico frequentado exclusivamente por PCAs e ICs, onde se decide quais os concursos internacionais (supostamente) dignos de existir. Depois os Editais seguem para o Plenário do CC, onde ocorre o habitual ritual jurídico: alguns dos presentes passam subitamente ao estado vegetativo institucional — estão presentes, mas não podem falar nem votar. Uma espécie de “Schrödinger democrático.”
Recordo igualmente que, aquando da aprovação deste modelo, “todos os membros da oposição presentes se uniram e votaram contra”, com direito a plot twist inesperado: um membro da Lista M resolveu votar a favor. O resultado final foi 12-8, isto é 75% a favor. Em linguagem institucional houve “consenso robusto.” Em linguagem normal dos DDTs: “Ganhámos. Faça-se.”
Na altura partilhei convosco as minhas dúvidas existenciais:
Deixamos este processo, provavelmente ilegal, continuar a desenrolar-se periodicamente, e calamo-nos;
ou
Mexemo-nos, fazemos vir ao de cima as possíveis ilegalidades que se estão a cometer para serem corrigidas, mesmo correndo o risco de dar cabo desse processo?
Spoiler: escolhemos essencialmente a primeira, mas com algum desconforto moral passivo-agressivo.
Entretanto, recentemente, chegaram os números oficiais do balanço desse processo. Magnífica ferramenta estatística que transforma desconforto em tabelas, senão veja-se:
| Edição | 2026 | Total (22-26) |
| Manifestações de interesse | 34 | 246 |
| Com Early Go | 26 | 193 |
| Sem Early Go | 8 | 49 |
| Avanço p/ CC sem Early Go | 0 | 4 |
| Análise CC positiva | 21 | 181 |
| Dossiers repescados | – | 3 |
| Contratações esperadas | – | 148 |
| Contratações inesperadas | – | 8 |
A minha posição pode ser explicada de forma relativamente simples: concordo com o processo em cerca de (181/246 =) 74% dos casos. O problema é aquele pequeno detalhe chamado “os outros 26%.” Em 2026 a taxa de conforto caiu para (21/34=) 62%, o que em unidades académicas corresponde aproximadamente ao momento em que alguém começa a usar expressões como “tenho algumas reservas.”
Mas houve mais…
Na reunião da CV do CC denunciei um caso de falha miraculosa na classificação de excelência e respetiva aceleração temporal do processo de valorização. Coincidentemente — certamente coincidência cósmica — os relatores escolhidos para acompanhar o caso pertenciam ambos à Lista T. Denunciei também, nesse caso, episódios de pressão elegante sobre o proponente do processo. Nada explícito, claro. Apenas várias conversas discretas, em modo “pé de orelha,” conduzidas ao longo de dias por catedráticos experientes na arte ancestral do “era melhor reconsiderar.”
O colega, recém-chegado ao IST e provavelmente ainda com esperança na humanidade, retirou o processo.
E agora a melhor parte documental deste caso e de outros semelhantes:
Não ficou nada no drive do CC.
Nada no drive da CV do CC.
Nada no Connect.
Os DDTs lavam mais branco.
Continuamos também sem emails formais a comunicar os resultados. Não esquecer que transparência excessiva pode causar efeitos secundários administrativos. Em compensação, fomos informalmente aconselhados a manter “reserva” sobre processos, atas, nomes e decisões. Uma espécie de Fight Club universitário:
“A primeira regra da CV do CC é: não se fala da CV do CC.”
É assim uma espécie de reserva institucional. Eu prefiro chamar-lhe “pacto de silêncio premium”.
O mais extraordinário é o esforço quase artístico para evitar deixar documentação comprometedora… enquanto os documentos de descrição dos termos do Processo de Valorização continuam alegremente publicados no site do CC e no Connect. O gato não tem só a cauda de fora. Neste momento o gato já espreita e pede ração.
Naturalmente, os processos retirados sob pressão aumentaram discretamente o denominador estatístico, mantendo-se o numerador, i.e. os aprovados, fazendo descer ainda mais a percentagem de aprovação do processo. Assim se aplica a estatística à ocultação.
Entretanto, o conselheiro Pedro Ferreira dos Santos ouviu comentários no Plenário relativos ao possível candidato associado a um Edital. Desde então começou a votar contra todas as atas relacionadas com editais e acrescentou declarações de voto a explicar, preto no branco, porque considera o processo incompatível com o RJIES e os Estatutos do IST[1].
Mais importante ainda: declarou publicamente não perceber como aquelas atas tinham chegado ali. Ou seja, o gato sentou-se à mesa e pediu minutos da reunião. E deixa tudo cheio de pelos. Os DDTs não estão a gostar.
Darei notícias futuras à medida que o enredo administrativo evoluir para novos episódios de:
Game of Vagas: The Silence Pact
Paulo Oliveira
11 de maio de 2026
[1] Por exemplo: https://conselhocientifico.tecnico.ulisboa.pt/files/sites/47/ata-cc-2026-08-de-25-de-marco.pdf
Hoje Cometi um Delito
Naquele dia inicial inteiro e limpo, sob céu instituicional e na posse das minhas faculdades administrativas habituais, pratiquei um ato administrativo. Mais concretamente, na qualidade de Coordenador do Programa de Doutoramento em Engenharia Aeroespacial, admiti um candidato ao referido programa. Bastou um click. O jovem investigador em causa, perigosamente qualificado, era formado nessa área. Trazia consigo uma média ponderada de mestrado de 19 valores e, para agravar o cadastro académico, uma classificação de 20 valores na tese de mestrado.
Perante tal perfil, qualquer cidadão administrativo prudente deveria ter desconfiado. Ninguém se apresenta assim, tão limpo, tão competente, tão curricularmente armado, sem levantar suspeitas regulamentares. Havia, contudo, um detalhe. Pequeno, periférico, quase inocente, como costumam ser os detalhes antes de adquirirem estatuto de infração. Eu sabia que iria ser o coorientador desse jovem investigador no seu futuro programa de trabalhos.
Confesso que o assunto me cruzou o espírito. Perguntei-me, por breves instantes, se deveria praticar aquele ato. Mas sosseguei-me: não lhe estava a atribuir o grau de doutor. Não lhe estava a oferecer uma cátedra, um laboratório, uma bolsa vitalícia, nem uma varanda com vista para o Tejo. Estava apenas a admiti-lo num programa de doutoramento para o qual reunia credenciais que, em circunstâncias menos fiscalizadas, poderiam ser descritas como inquestionáveis.
Acresce que, no regime vigente, os candidatos podem apresentar-se a programas doutorais sem terem de anunciar previamente a composição da futura equipa de supervisão. Assim, tendo em conta o perfil do candidato, a sua formação, a sua proveniência científica e a natureza do ato em causa, concluí — imprudentemente — que não haveria problema.
Havia! Cometi um delito.
Fui informado, de viva voz, poucas horas depois pela Vice-Presidência do Conselho Científico responsável pelos assuntos em apreço, na prevenção e proteção dos crimes contra a segurança do Estado, que tinha detetado a anomalia. O radar institucional, sempre atento ao menor estremecimento da ordem processual, captara a vibração irregular do meu ato.
Não podia ter feito a admissão. Existia, segundo fui notificado, um “conflito de interesses.”
A expressão surgiu com a gravidade própria dos conceitos que dispensam explicação imediata. “Conflito de interesses” é uma daquelas fórmulas administrativas dotadas de vida própria: entra numa frase e, a partir daí, todos os presentes baixam a voz, arrumam os papéis e deixam de fazer perguntas excessivas.
Fui avisado de que o processo seria revertido. Não corrigido. Não ponderado. Não reapreciado. Revertido. Palavra de grande beleza funcional, com aroma a botão vermelho. O procedimento saneador.
A solução foi igualmente prescrita com louvável prontidão: incluir um ou vários membros do Conselho Científico do Programa Doutoral no processo, para que um deles praticasse o mesmo ato que eu tinha praticado, mas agora em estado de pureza regulamentar.
O candidato continuaria a ser o mesmo. O currículo, o mesmo. A média de 19, a mesma. A tese de 20 valores, a mesma. O programa, o mesmo. A decisão substantiva, indubitavelmente, a mesma. Mudaria apenas a mão administrativa. E, como todos sabemos, em matéria de integridade processual, a mão é tudo.
O delito foi pequeno. Um delito de expediente, quase doméstico, sem sangue, sem ruído e sem benefício visível para o arguido administrativo que o praticou. Mas a vigilância foi absoluta. A deteção, imediata. A sentença, célere. A pena, instantânea e irrevogável.
O que é notável, porém, não é a existência de zelo. O zelo, em si, é uma virtude respeitável. O que merece estudo é a sua distribuição topográfica: intenso ao milímetro no pequeno despacho. Contemplativo, quase filosófico, perante geografias inteiras de dependência académica. Assim, operam os DDTs.
Porque estamos num país onde se aceita que, num concurso para professor universitário, possa estar presente o orientador de um candidato. Aí, aparentemente, o cordão umbilical transforma-se em laço curricular, e o conflito de interesses passa a ser entendido como uma bela tradição de continuidade científica.
E numa escola que ensina, no seu programa de admissão de novos professores, que estes devem caminhar na direção da independência científica. Fórmula nobre, moderna, irrepreensível. Mas, quando chega o fim do período probatório e se verifica que esse cordão umbilical ainda não foi cortado, a tesoura institucional perde subitamente o fio. A independência, conclui-se, é uma excelente orientação pedagógica, desde que não obrigue a demasiada separação.
Esta mesma escola onde, havendo áreas científicas que tiveram nos últimos anos os mesmos membros externos na grande maioria dos seus concursos, o Conselho Científico não vê nada de especial. Pelo contrário: olha, pondera, delibera e, com a serenidade dos organismos imunes à surpresa, conclui que o melhor é “Manter tudo como antes, no quartel de Abrantes.”
Perante isto, o meu pequeno delito ganha modéstia histórica. Não tive orientador em júri de concurso. Não perpetuei dependências científicas. Não convoquei o mesmo externo como figura quase residente da imparcialidade itinerante. Limitei-me a admitir num programa doutoral um candidato com excelentes classificações, sabendo por certo que viria a ser seu coorientador.
A integridade institucional não é uma linha reta. É mais uma arte decorativa, aplicada com pincel fino nos rodapés e com grande liberdade estética nas paredes-mestras.
Num país onde a excelência académica ainda pode ser admitida, convém que o seja pela pessoa certa, no quadradinho certo, depois de devidamente purificada pela cadeia competente de intervenientes não comprometidos com o futuro científico do candidato.
Fica a lição.
Quanto a mim, seguirei vigilante.
Naquele dia cometi o delito de admitir um aluno brilhante.
Amanhã, quem sabe, talvez preencha um formulário.
Paulo Oliveira
25 de abril de 2026
Promoções Gestionárias no IST em 2026 ou como
A montanha pariu um rato
Quinze anos depois da publicação do ECDU e do RADIST, foi finalmente publicado o Despacho n.º 3830/2025, que veio permitir a hipótese de promoções gestionárias.
Os DDTs falharam, em 2025, a utilização deste mecanismo para reconhecer o esforço dos docentes. Afinal, tratava-se apenas de premiar quem, além de assegurar formação de excelência, contribui com esforço, empenho, profissionalismo e saber para gerar uma fração significativa do orçamento anual do IST. Nada de urgente, portanto.
A mão foi depois emendada no orçamento de 2026, com um valor superior a 800.000 euros na rubrica respetiva. À partida, parecia um valor interessante. Numa primeira estimativa, admitiu-se que pudesse reconhecer o esforço de cerca de duas centenas de colegas. As expectativas, imprudentemente, aumentaram.
Mais de um ano após a publicação do referido Despacho, chegaram finalmente as decisões. Inaugurando um novo estilo de comunicação institucional — discreto, quase arqueológico — o Grande Gestor fez publicar no site do Conselho de Gestão, no separador “Documentos”, a Deliberação n.º 1/2026:
https://conselhodegestao.tecnico.ulisboa.pt/files/sites/30/deliberacao_01_cg_2026.pdf
O documento descreve, com o detalhe próprio das grandes construções administrativas, os considerandos legais relativos à avaliação, progressão e promoção, bem como a sua relação com as promoções gestionárias. Termina com as deliberações, organizadas nos seguintes pontos: A) A aplicação do regime transitório de progressão; B) o Critério geral de elegibilidade; C) a Justificação do limiar de 18 pontos; D) os Efeitos remuneratórios e pagamento faseado; e finalmete a E) Execução e publicação.
Os justamente agraciados receberam um email com o seguinte teor:
De: <claudia.jacinto@tecnico.ulisboa.pt>
Date: sexta, 20/03/2026 à(s) 15:43
Subject: Aplicação do regime de alteração do posicionamento remuneratório | Despacho n.º 3830/2025
To: <xxx@tecnico.ulisboa.pt>
Exmo. Senhor Professor XXXX,
A pedido do Presidente do IST, Professor Rogério Colaço, segue infra informação referente à aplicação do regime de alteração do posicionamento remuneratório dos docentes do ensino superior, estabelecido pelo Despacho n.º 3830/2025, que ocorrerá no dia 23 do corrente mês.
Com os melhores cumprimentos,
——————————-
Exmo. Senhor Professor XXXX,
Na sequência da aplicação do regime de alteração do posicionamento remuneratório dos docentes do ensino superior, estabelecido pelo Despacho n.º 3830/2025, e nos termos da Deliberação n.º 1/2026 do Conselho de Gestão do Instituto Superior Técnico, disponível para consulta na página eletrónica do CG (https://conselhodegestao.tecnico.ulisboa.pt/files/sites/30/deliberacao_01_cg_2026.pdf) cumpre informar V. Ex.ª do seguinte:
1. Alteração de posicionamento remuneratório
Na sequência da avaliação do desempenho e da contabilização dos pontos acumulados não utilizados até 31 de dezembro de 2024, foi determinado que V. Ex.ª reúne as condições para alteração do posicionamento remuneratório, com progressão para o escalão imediatamente seguinte da respetiva categoria.
2. Produção de efeitos
Nos termos do regime legal aplicável, a referida alteração de posicionamento remuneratório produz efeitos a 1 de janeiro de 2025, sendo devida, desde essa data, a remuneração correspondente ao novo escalão.
3. Pagamento de retroativos
Os montantes remuneratórios retroativos, correspondentes ao período compreendido entre 1 de janeiro de 2025 e à efetiva atualização remuneratória, serão processados de forma faseada entre os meses de março e dezembro de 2026, sendo cada fração mensal acrescida à remuneração mensal de V. Ex.ª. Este processamento será efetuado pelos serviços competentes, encontrando-se sujeito à execução orçamental do Instituto.
4. Formalização administrativa
A alteração de posicionamento remuneratório será formalizada mediante despacho do órgão competente, a emitir nos termos legais e regulamentares aplicáveis, sendo posteriormente refletida no recibo de vencimento.
5. Consulta das avaliações obtidas e dos pontos acumulados
As avaliações obtidas podem ser consultadas no Fénix e os pontos acumulados estarão brevemente disponíveis para consulta no Portal SAP.
6. Informação complementar
Para quaisquer esclarecimentos adicionais, poderá V. Ex.ª contactar a Direção de Recursos Humanos, através do endereço eletrónico siadap@drh.tecnico.ulisboa.pt.
O Instituto Superior Técnico reconhece, com esta medida, o desempenho acumulado dos seus docentes, procedendo à regularização de situações que, por constrangimentos legais e orçamentais verificados em anos anteriores, não puderam ser oportunamente concretizadas.
Com os melhores cumprimentos,
Rogério Colaço
Presidente do IST
Parabéns a todos eles, pelas merecidas promoções.
Mas hoje sabemos mais:
a) O regime transitório só é descrito para 2026. Quanto aos que não foram agora contemplados, resta-lhes continuar a acumular pontos. Convenhamos: já têm prática. O PIST não considera relevante partilhar a estratégia que seguirá na utilização desta nova ferramenta de gestão das promoções.
b) Há colegas com mais de 36 pontos que, ainda assim, só progrediram um escalão. Em várias outras instituições de ensino superior, há relatos de progressões de dois ou mesmo três escalões. O IST, fiel à sua tradição de excelência, optou por uma excelência mais económica.
c) Nem todos os docentes de carreira com mais de 18 pontos tiveram progressões gestionários de escalões. Se dúvidas havia, eu encontro-me entre eles. Depois de uma espera de mais de dois meses desde que solicitei essa informação ao DRH, fui recentemente informado que tenho 20 pontos. E não estou sozinho. Conheço pelo menos mais um colega na mesma situação;
d) É anunciado, mais uma vez, que a informação sobre os pontos acumulados por cada docente estará “brevemente” disponível no Portal SAP. Aguardemos. A eternidade administrativa também se mede em advérbios.
e) A aplicação do critério de aplicabilidade, descrita no final do ponto B da deliberação exclui “os colegas que tenham tido uma alteração obrigatória de posicionamento remuneratório a 1 de janeiro de 2022 …” Decisão arbitrária e potencialmente descricionária, não justificada, com base em algo que aconteceu há mais de QUATRO anos e ao arrepio da Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas – LTFP, nomeadamente o artigo 156º e seguintes;
f) O uso deste mecanismo não só não foi suficientemente explicado como não se anuncia qualquer instância de reclamação ou recurso. É pena. Mas talvez a opacidade também seja uma forma de simplificação administrativa.
Pena é também que, no IST, haja quem não queira divulgar em que departamentos ocorreram estas progressões, que colegas foram abrangidos e a que categorias pertencem. Seria igualmente relevante saber quantos docentes tinham pontos suficientes para progredir, mas não o puderam fazer por já se encontrarem no último escalão da respetiva categoria. Para aceder a esta informação seria necessário um nível de transparência que esta gestão, até agora, não demonstrou vontade de implementar. Aliás, foi-me prometido pessoalmente pelo PIST, em Plenário do CC, que essas informações seriam divulgados em fevereiro, incluindo os pontos de cada docente. Não foram. Talvez se entenda que vivemos melhor na ignorância. É uma hipótese de gestão. Reconheço, contudo, que já me estou a repetir. Parte destas lamúrias já vos foi enviada anteriormente. Mas a repetição, como sabemos, é um dos pilares da pedagogia. E também da administração pública.
O essencial é este: com este novo mecanismo de promoção, apenas cerca de OITENTA colegas foram contemplados. Um número muito inferior ao que poderia e deveria ter sido. O restante da verba terá servido, afinal, para corrigir posicionamentos incorretos entretanto detectados nas progressões obrigatórias.
Mas porquê a relevância do foco nas Promoções Gestionárias?
Será justo reclamar que seja abrangido até ao último docente que, com o seu esforço continuado nos quatros pilares em que somos avaliados, tenha acumulado pelo menos 18 pontos.
É escandaloso até que o último docente que, tendo ganhado projetos em calls competitivas ou trabalhado nesses mesmos projetos nas suas horas de trabalho ou que tenham prestado serviços à sociedade, remunerados ao IST, tendo acumulado os 18 pontos, não tenha sido abrangido.
É de uma falta de visão estratégica atroz todo e qualquer decisor que, tendo um mecanismo de promoção, não o use para premiar aqueles que com o seu esforço contribuem diretamente ou indiretamente para cerca de um terço do orçamento da instituição em causa. O fator multiplicativo de um tal mecanismo é enorme.
Em conclusão: o mecanismo existe e sabem como aplicá-lo. A intensidade, a abrangência e a justiça da sua aplicação dependem apenas da estratégia do Grande Gestor.
Por enquanto…
a montanha pariu um rato.
Paulo Oliveira
14 de abril de 2026
Paixão segundo o Organigrama
E aconteceu naqueles dias que, numa grande instituição de corredores longos, portas pesadas e vocação declarada para a excelência, apareceu um homem bom e justo. Não trazia consigo nem a flexibilidade dos servis, nem a malícia dos peritos, nem a oleosidade dos que depressa aprendem a inclinar-se ao sabor do vento. Falava pouco, trabalhava muito e tinha ainda esse defeito antigo e quase obsceno: acreditava que as coisas deviam servir para aquilo para que foram feitas.
E vendo ele a desordem vestida de procedimento, a mentira embalada em linguagem técnica, e a vaidade sentada nos lugares de decisão, começou a dizer em voz clara o que todos murmuravam em voz baixa. E muitos se inquietaram, não porque dissesse falsidades, mas porque dizia verdades sem pedir licença.
E logo se levantaram contra ele os primeiros devotos da casa.
Vieram os yes-men, que em todas as épocas florescem à sombra das cadeiras altas como hera obediente. E diziam entre si: “Este homem é perigoso, porque fala como quem não espera promoção.” E o seu escândalo era sincero, porque nunca tinham visto ninguém afirmar uma coisa sem antes medir o humor da chefia.
Vieram também os voluntariosos, afadigados e radiantes, homens de muito zelo e pouca substância, que corriam de sala em sala levando atas, intenções, convites, sínteses, alinhamentos e outros detritos da ação sem critério. E diziam: “Senhor, se quiseres, organizamos já um grupo de trabalho para enquadrar a tua verdade em formato colaborativo.” Mas ele não lhes respondeu, porque sabia que há propostas que são apenas uma forma educada de asfixia.
E não tardaram os idiotas úteis, esses bem-aventurados carregadores de agendas alheias, puros de discernimento e ricos de convicção. Tomaram as suspeitas dos outros por juízo próprio e as intrigas dos superiores por dever moral. E espalharam por toda a instituição que aquele homem era inflexível, desagregador, pouco construtivo e, pior do que tudo, insuficientemente alinhado. E não o diziam por maldade, mas por essa forma particularmente eficiente de estupidez que se julga virtude.
Ora, havia na casa homens antigos, doutos em regulamento e perversão, e entre eles sobressaíam os filhos da mãe encartados, que não levantam a voz, não sujam as mãos e jamais se comprometem com brutalidade quando podem administrar o dano com elegância. E reuniram-se em salas discretas, com água à mesa e gravidade no rosto, para “refletir serenamente sobre o contexto”. E disseram uns aos outros: “Convém agir cedo, antes que a franqueza se torne precedente.”
E estava entre eles o sacana, velho artífice de corredores, que nunca atacava de frente, mas sabia untar o chão onde os outros haveriam de escorregar. E falou assim: “Não convém destruí-lo. Convém apenas criar condições para que se torne inviável.” E todos reconheceram naquela frase a música antiga do mal bem educado.
E havia ainda o tribalista, servo não da instituição mas da sua facção, que dividia o mundo entre os dele e os outros, entre os fiéis da capela e os suspeitos de autonomia. E perguntou com azedume: “De onde vem ele? Quem o sustenta? A que rede pertence?” Porque os tribalistas, não entendendo o mérito, tentam sempre traduzi-lo para a única língua que conhecem: a do bando.
E quando viu que o homem justo não podia ser absorvido nem domesticado, o tribalista enfureceu-se, pois há verdades que ofendem menos por serem duras do que por não trazerem carimbo de tribo.
Sucedeu então que, numa tarde carregada de pressentimento e café requentado, teve lugar a última reunião útil. E o homem sério e justo entrou sabendo que muitos dos que se sentavam à mesa já traziam o coração entregue ao cálculo, a alma ocupada pelo medo e a boca preparada para a abstenção prudente.
E à mesa sentou-se também o camaleão, que em todas as casas assume a cor do superior mais próximo. E olhava alternadamente para o homem sério e para os chefes, não para compreender, mas para calibrar o futuro. Nada havia nele de fidelidade ou traição: apenas metodologia moral.
E estava ali um dos seus, homem de boa intenção e fibra insuficiente, que jurava lealdade com a sinceridade trémula dos fracos. E o homem sério olhou-o e soube que antes do romper do dia ele haveria de negar três vezes ter estado verdadeiramente ao seu lado. Não por vileza, mas por esse cansaço de alma em que a prudência se veste de sensatez e a cobardia aprende a falar baixo.
Ao cair da noite saiu de entre eles o porteiro do acesso, pequeno senhor de chaves, agendas, circuitos e permissões, que sabia a quem se abre a porta e a quem se fecha o destino. E conduziu os enviados discretos pelos corredores certos, até à sala certa, no momento certo, porque o pequeno poder sonha sempre participar no grande.
E eis que chegou o vendedor de fumo, trazendo consigo uma nuvem de palavras sem osso: contexto, estabilidade, reputação, maturidade, governance, processo, sensibilidade, tempo. E falou longamente para que nada se dissesse, que é o ministério próprio do fumo. E alguns, ouvindo-o, sentiram-se mais tranquilos, como se a névoa fosse prova de profundidade.
Depois veio o gestor de PowerPoint, que apresentou a queda em cinco bullets, a suspeita em dois eixos e a eliminação sob a forma de roadmap. E fez da perseguição uma transição, da humilhação um ajustamento e do medo um slide limpo com cabeçalho institucional. E vendo isso, muitos se comoveram com a elegância do esquema, porque em lugares fatigados a forma acaba por absolver o conteúdo.
Foi então levado o homem perante o resistente viscoso, doutor em adiamentos, que jamais dizia não para não ter de assumir a recusa. E perguntou-lhe não para saber, mas para atrasar. E pediu mais elementos, mais contexto, mais validação, mais prudência, mais uma ronda, mais um parecer, pois o seu ofício era este: matar as coisas por diluição, até que cheirassem a vencidas por natureza. Mas vendo que desta vez a máquina queria rapidez, afastou-se prudentemente, como se a sua neutralidade fosse uma forma de inocência.
E trouxeram-no então perante o especialista em objeções, o qual jamais edificara coisa alguma, mas possuía uma extraordinária aptidão para detectar insuficiências nos outros. E disse com ar grave: “Talvez haja aqui um problema de estilo. Ou de gravitas. Talvez falte maturidade. Talvez a verdade, embora verdade, tenha sido comunicada com excessiva frontalidade.” E todos admiraram aquela inteligência estéril, porque nada encanta tanto os medrosos como a crítica que não arrisca.
Entretanto, do lado de fora, crescia o coro dos medíocres.
Os idiotas úteis repetiam o que lhes haviam soprado.
Os voluntariosos propunham mesas redondas sobre o conflito.
Os tribalistas contavam cabeças e testavam fidelidades.
Os yes-men aguardavam o sinal para concordar.
Os camaleões iam mudando de cor de cinco em cinco minutos.
E os cínicos profissionais, de braço cruzado e sorriso oblíquo, murmuravam: “Sempre foi assim”, frase com que os desistentes coroam a vitória do lodo.
Levaram-no por fim o homem justo ao Grande Gestor da casa, homem de mãos limpas, fato impecável e consciência terceirizada, a quem competia decidir sem jamais parecer responsável. E este ouviu, percebeu o suficiente e temeu mais ainda. Porque viu que o homem não era perigoso por mentir, mas por não participar no teatro. Gente assim perturba mais as instituições do que um corrupto, um incompetente ou um fanático: perturba-as pelo contraste.
E perguntou-lhe o Grande Gestor: “Que tens a dizer em tua defesa?”
O homem bom e justo guardou silêncio, não por submissão, mas por saber que há tribunais onde a conversa já entrou morta.
Então levantou-se o filho da mãe encartado e falou com mansidão letal: “Ninguém põe em causa o valor da pessoa. Trata-se apenas de reconhecer que, neste momento, talvez o seu perfil não seja o mais ajustado ao quadro relacional e institucional em que nos movemos.” Houve à volta murmúrio de aprovação, porque a perversidade, quando fala em tom técnico, passa facilmente por sabedoria.
Vendo o Grande Gestor que o ambiente exigia sacrifício, chamou água, lavou as mãos em abstração processual e entregou o homem à multidão burocrática. Não disse “condeno-te.” Disse apenas: “As circunstâncias assim recomendam.” Que é como os covardes modernos lavram sentenças sem manchar a sintaxe.
E foi o homem sério e justo conduzido pelos corredores, entre olhares baixos, silêncios diligentes e alguns cumprimentos envergonhados. E carregava às costas não um madeiro, mas o peso muito mais contemporâneo de ser tornado problema por ter sido inteiro. E aqueles que antes o saudavam agora afastavam os olhos, porque a proximidade à queda alheia lembra sempre a cada um o preço da coluna vertebral.
Um antigo colega próximo, interrogado por três vezes junto à máquina do café, negou conhecê-lo verdadeiramente.
Disse da primeira vez: “Nunca trabalhei diretamente com ele.”
Disse da segunda vez: “Tive pouco contacto.”
Disse da terceira vez: “Também achei por vezes que lhe faltava diplomacia.”
E logo cantou o galo da manhã sob a forma de notificação no telemóvel. O homem bom e justo saiu dali a chorar com vergonha de si mesmo, porque há negações que não se fazem por maldade mas por insuficiência de alma.
Entretanto, os gestores de narrativa classificavam o comportamento do homem em etiquetas administráveis: difícil, rígido, pouco político, exigente demais, incapaz de construir pontes. E lançavam sortes sobre a sua memória, para ver sob que categoria seria mais cómodo enterrá-lo.
Acima da sua queda foi afixado um letreiro invisível, escrito não em hebraico, grego e latim, mas nas três línguas do nosso tempo: jurídico, institucional e cobarde. E o letreiro dizia:
“Aqui jaz alguém que confundiu verdade com possibilidade.”
E, consumado o processo, houve paz na casa.
A paz dos viscosos.
A paz dos servis.
A paz dos que sobreviveram.
A paz dos que chamam estabilidade à ausência de carácter.
No dia seguinte,
Os voluntariosos abriram um formulário para recolher aprendizagens.
Os yes-men elogiaram a serenidade da gestão.
Os tribalistas consolidaram posições.
Os camaleões descobriram que sempre tinham tido dúvidas.
Os cínicos sorriram como quem já sabia.
E os filhos da mãe encartados redigiram a nota final em tom sóbrio, para que o crime respirasse compostura.
Só os raros que ainda não tinham vendido a alma ao conforto sentiram no ar uma espécie de frio. Não o frio do medo apenas, mas o de reconhecer que a casa, para se proteger de um homem sério, precisara mobilizar quase toda a sua estrutura imoral. E entenderam então que a instituição não o expulsara apesar dos seus vícios, mas precisamente por causa deles. Porque toda a organização apodrecida reconhece no homem íntegro não um aliado, mas uma acusação viva.
E assim terminou a paixão administrativa daquele homem.
Não houve trevas sobre a cidade, nem roupas rasgadas no templo. Houve apenas um e-mail discreto, uma reformulação orgânica e um silêncio pesado nos corredores. Que é, no nosso tempo, uma forma muito sintética de crucificação.
Paulo Oliveira
1 de abril de 2026
(Texto escrito com ajuda de substâncias gourmet, pouco intoxicantes e um agente de IA)
Classificação dos Aspirantes a DDTs
Percorrida a chave dicotómica para classificação da fauna ISTiana, com um conjunto de sins e nãos mais ou menos óbvios, chegamos à sub-espécie dos aspirantes a DDT. É uma população com uma certa dimensão, que tem como habitat os campi do IST. Cada um desses espécimes aspira sempre a subir e a ter mais poder. Numa organização grande, complexa e supostamente “orientada para a excelência”, o mais notável não é a competência nem a inteligência. Portanto têm de pôr as suas outras faculdades ao serviço dos DDTs.
Segue uma tentativa de sistematização, com uma ponta de sátira…
I. Os submissos funcionais
O yes-man – Tem uma coluna vertebral dobrável. Não tem opinião: tem eco. A sua principal competência é transformar a opinião do superior na sua convicção íntima, com um atraso máximo de poucos segundos. É o tradutor oficial da estupidez em linguagem de alinhamento estratégico. É muito útil em reuniões: reduz a fricção, simplifica a realidade e acelera o disparate.
O voluntarioso – Está sempre disponível, sempre motivado e quase sempre errado no essencial. Oferece-se para tudo, adora “agarrar desafios” e confunde movimento com progresso. Confunde disponibilidade com utilidade, agitação com eficácia e boa vontade com talento. É aquele que, vendo um incêndio, propõe um grupo de trabalho para estudar combustão colaborativa.
O idiota útil – Não é necessariamente mau. Só é perigosamente disponível para ser instrumentalizado. Transporta agendas alheias com o entusiasmo moral de quem julga estar a servir uma causa nobre, moderna ou “estratégica”. Funciona como estafeta do mal-organizado: leva a mensagem sem perceber a encomenda. É o imbecil com iniciativa: combinação historicamente destrutiva.
II. Os predadores organizacionais
O sacana – Espécime clássico. Move-se bem em zonas cinzentas, fala por insinuação e assume responsabilidade apenas por sucessos retroativos. Nunca empurra ninguém diretamente; cria apenas as condições para que o outro caia sozinho. Tem um fino sentido de oportunidade e uma relação muito livre com a decência.
O filho da mãe encartado – É o sacana maratonista. Domina jargão, timing, governance, stakeholder mapping e a arte da facada institucional com enquadramento metodológico. Já não intriga à bruta; “reposiciona narrativas”, “recalibra expectativas” e “protege a organização” de pessoas mais íntegras do que ele.
O carreirista glacial – Não odeia ninguém em particular; simplesmente pisaria um campus se isso melhorasse o seu lugar na fotografia. Vê colegas como degraus, equipas como plataformas e princípios como adereços de entrevista. É cordial, impecável e vazio. Cumprimenta com educação, elogia em público e faz contas em privado.
III. Os fanáticos de pertença
O tribalista – Não trabalha para a organização; trabalha para o clã. Divide o mundo em “os nossos”, “os deles” e “os que ainda podem ser cooptados”. O mérito, para ele, é uma superstição simpática que se invoca quando favorece a própria facção.
O guardião da capela – É o sacerdote do pequeno feudo. Defende procedimentos, territórios e minudências com o fervor de quem protege a civilização ocidental, quando na verdade protege apenas a gaveta onde mora o seu poder. Adora dizer: “sempre se fez assim”, frase que em muitas instituições substitui Constituição, estratégia e pensamento.
O purista ideológico – Prefere ter razão no catecismo a resolver o problema real. Tudo é lido através de um quadro moral, doutrinário ou identitário que simplifica o mundo e complica o trabalho. Não gere pessoas nem factos. Gere ortodoxias.
IV. Os artistas da aparência
O gestor de PowerPoint – Não produz realidade; produz slides sobre a possibilidade de um dia alguém a produzir. Tem talento para converter banalidades em “roadmaps”, atrasos em “redefinições de fase” e confusão em “complexidade transformacional”. É, por excelência, um decorador do vazio.
O vendedor de fumo – Chega com léxico de alto calibre: disrupção, inovação, mudança de paradigma, reinvenção. Ao fim de seis meses percebe-se que embrulhou generalidades conhecidas em inglês técnico e as faturou como visão. É menos um profissional do que um fenómeno atmosférico.
O cosmético moral – Precisa de parecer virtuoso em permanência. Não quer necessariamente fazer o bem; quer sobretudo ser visto do lado certo da fotografia ética. Muito forte em declarações, códigos, compromissos, sensibilidades e outras formas de santidade de gabinete.
V. Os ingénuos nocivos
O bem-intencionado devastador – Tem alma pura e consequências catastróficas. Acredita que boas intenções compensam falta de discernimento, e que entusiasmo pode substituir competência durante tempo indefinido. Costuma deixar atrás de si processos confusos, equipas exaustas e uma aura de virtude ofendida.
O missionário da mudança – Quer reformar tudo, de preferência sem conhecer nada.Desconfia da experiência porque a acha “resistente”. Desvaloriza limites porque os confunde com pessimismo.É o tipo que entra num sistema complexo como quem entra numa cozinha alheia para “dar frescura” e sai deixando o fogão ligado.
VI. Os profissionais do pequeno poder
O porteiro do acesso – Controla agendas, informação, contactos, assinaturas ou permissões como um senhor feudal de micro serviços.Extrai importância do facto de os outros precisarem dele para passar. Não manda muito, mas bloqueia magnificamente.
O regulador de minudências – Nunca terá uma visão estratégica, mas possui um radar sobrenatural para a vírgula em falta, a rubrica errada e o formulário desatualizado.É imprescindível e insuportável, por vezes em simultâneo. Representa a vingança do detalhe sobre o propósito.
O intimidante de corredor – Forte fora da ata, valente à porta fechada, ambíguo quando é preciso assumir. Exerce poder por tom, proximidade e insinuação. É um autoritário de baixa cilindrada: raramente lidera, mas estraga bastante.
VII. Os sobreviventes adaptativos
O camaleão – Nunca sabemos bem o que pensa, e isso é porque ele trabalha arduamente para que nunca se saiba. Adapta-se à chefia, ao vento, ao ciclo político, à narrativa e à temperatura ideológica da semana. É o sobrevivente perfeito de instituições sem memória.
O equilibrista moral – Sabe que há coisas erradas, mas calcula com minúcia em que grau exato convém fingir que não viu. Não é vilão. É um contabilista do carácter. Vive na zona onde a consciência ainda respira, mas já paga renda ao medo.
O cínico profissional – Já viu tudo, já não acredita em nada e faz dessa exaustão uma identidade intelectual. Tem sempre uma observação mordaz, um sorriso lateral e nenhuma disponibilidade para corrigir o que denuncia. É a lucidez quando desiste de ter coragem.
E há ainda os que nada ajudam, mas pensam que podem aspirar a DDTs…
VIII. Os sabotadores passivos
O resistente viscoso – Nunca diz frontalmente “não”; limita-se a atrasar, a pedir mais validação, a levantar reservas processuais e a convocar prudência. Prefere dissolver qualquer iniciativa em prudência, validação, parecer, circuito, reformulação e reenvio. É a burocracia em forma humana. Se lhe derem uma tarefa simples, devolve um circuito de aprovação em quatro etapas e um risco reputacional hipotético.
O especialista em objeções – Não constrói nada, mas identifica falhas em tudo. Tem a vantagem de parecer inteligente, porque a crítica é sempre mais barata do que a solução.
É um talento particularmente valorizado em ambientes onde o medo de errar já venceu o desejo de acertar.
O ausente estratégico – Está sempre “apanhado”, “em trânsito”, “noutra frente”, “a fechar um tema”. Nunca está onde a responsabilidade aterra, mas aparece milagrosamente quando há visibilidade, palco ou repartição de louros. Pratica uma forma refinada de omnipresença sem risco.
Assim vai a casa. Uns trabalham até ao desgaste, outros conspiram até à promoção, outros simulam até à reforma. A massa intermédia adapta-se como pode, aprendendo cedo a lição central de todas as organizações fatigadas: a de que o mérito isolado é frágil, a decência é pouco escalável, e a mediocridade, quando se organiza, adquire uma força histórica considerável.
No fim, toda a grande instituição acaba por parecer menos uma máquina racional do que um anfiteatro mal ventilado onde os diligentes carregam o projetor, os medíocres distribuem os documentos de apoio, os canalhas tratam da encenação e os parvos batem palmas ao próprio enterro. E por cima disto tudo, com ar grave e PowerPoint irrepreensível, flutua sempre a religião oficial da casa trazida pelo Grande Educador do Povo: a convicção comovente de que tudo isto se faz “em nome da excelência”.
Paulo Oliveira
31 de março de 2026
(Texto escrito com ajuda de substâncias gourmet pouco intoxicantes e um agente de IA)
No papel de repórter de quiosque e de corredor …

E por cá, já alguém teve uma promoção gestionária? Ou o acerto salarial devido a posicionamento incorreto ocorrido nos últimos 15 anos? No orçamento de 2026, o Grande Gestor (GG) fez aprovar orçamento com mais de 800.000 Euros nesta rubrica! Estava prometido os acertos iniciarem-se em fevereiro…
E agora uma notícia da Rádio Alcatifa… conforme relatado por fonte anónima, o nosso GG anunciou recentemente em reunião oficial de Órgão do IST, mensagem com mais ou menos o seguinte teor (alegadamente, que eu não quero chatices)…
– Não há que ter pressa em começar os processos de scouting para 2027. Dado o contexto internacional de incerteza e o aumento do preço da energia, será necessária contenção nas contratações para o ano.
É sempre a gramar… mantenham-se alerta.
Fiquem bem.
Paulo Oliveira
Da Constituição dos Júris dos Concursos Universitários
Bem feita
(Temos de lutar por isto)
Delegações de competências do Conselho Científico nos Departamentos e destes nas Áreas Científicas (ACs), por sub-delegações e acordos de cavalheiros, levam a que a constituição dos júris sejam feitos muitas vezes pelo Coordenador de uma AC.
Numa ética de boa vizinhança e partilha de responsabilidades, o júri a ser constituído deveria ser discutido pelos catedráticos da AC em causa. Por exemplo pedir para os Catedráticos da área sugerirem um ou dois nomes e tentar incluir o máximo número de sensibilidades possível.
De acordo com os regulamentos, o júri deve ser apresentado na comissão de vagas do Departamento respetivo, onde é feito o Edital e este votado ou consensualizado antes de seguir para o Presidente do Departamento. Este submete-o ao Conselho Científico que o aprova. É aí que se toma a decisão de aceitar um júri. Não se verifica se os membros externos do júri publicam ou publicaram com os catedráticos da AC em causa. Essa triagem podia-se fazer em minutos, mas…
Ou, com base no histórico dos concursos na AC em causa, também se deveria fazer o despiste de presenças (demasiado) assíduas de algum dos elementos. Um membro externo só deverá pertencer a um júri de uma dada AC, de um dado departamento, x anos depois de ter pertencido a outro anteriormente. E já agora, só deve pertencer uma vez a cada y concursos. A bem da aleatoriedade, robustez e independência dos júris. Evitar-se-iam assim os casos que recentemente se começaram a denominar como sindicatos de júris: agora que me chamaste, eu voto no candidato que tu preferes e amanhã eu chamo-te para um júri e tu votas em quem eu te disser. Ilegal, mas fácil de encontrar…
Se o IST quiser implementar uma ética inatacável, basta que para se um concurso for posto em tribunal administrativo, os membros que pertenceram a esse júri, deveriam ser postos em quarentena (graylist). Se o IST perder e se se determinar que os elementos externos desse concurso tiveram comportamentos criticáveis, deverão ser inibidos de se voltarem a convidar (blacklist). Ou seja, tivemos convidados que não se portaram bem. Parece razoável, mas não é feito.
Como bem sabemos, o tribunal leva muito tempo a decidir. Os DDTs também não querem tirar lições dos erros feitos no passado. Se não vier a ser provado qualquer comportamento menos próprio, os membros do júri em causa, serão reconsiderados no futuro (retirado da graylist).
Da Constituição dos Júris dos Concursos Universitários
Mal feita
(Artes da sacanagem)
COM FOTOGRAFIA: Este é o truque clássico: incluem-se fatores preferenciais ou área do concurso tão específica, que só um candidato (conhecido) trabalha nessa sub-sub-área. Parece um truque estafado, mas é só procurar o Despacho nº47/2026, do Magnífico Reitor da Universidade de Lisboa, que determinou a cessação de dois concursos com Editais nº1666/2024 (PCA) e nº1674/2024 (PAS). Aí pediam-se “atividades de ensino e investigação que na área disciplinar do concurso associadas à tecnologia mecânica e com enfoque na experimentação e simulação numérica da enformabilidade de chapas e tubos metálicos,” ou “atividades de ensino e investigação que na área disciplinar do concurso estão associadas à tecnologia mecânica e com enfoque na experimentação e simulação numérica do fabrico híbrido de produtos metálicos,” respetivamente.
Os sindicatos, alertados pelos interessados que se sentiram prejudicados, contactaram o Conselho de Gestão do IST, que remeteu para o CC, que remeteu para à CV do DEM. Unanimidade que eram concursos com fotografia. Depois de procedimento na Reitoria e audiência de interessados, cessação!
INCHA: sempre que possível, motivados pelas revoluções que estão a acontecer no Mundo, argumenta uma área científica que há necessidade de criar novas Unidades Curriculares. Abrem-se as UCs, desequilibra-se o serviço docente, e essa área passa a usar o argumento de que se necessita de mais docentes. E vêm os concursos. Depois, constata-se que há poucos alunos. Mas fechar, fundir ou racionalizar a oferta letiva é sempre muito difícil ou impossível. Se dúvidas há, veja-se o exemplo da LEE e do MEE no Campus do Tagus Park. Em estado zombie, há mais de 20 anos, mas a aguentar-se gloriosamente.
EFEITO GAMBITO: Outra possível estratégia consiste em indicar possíveis candidatos, à última da hora, sem scouting ou que se sabe que não serão vencedores ou que nem concorrerão. Tendo um CV relevante, aumenta-se a hipótese de o concurso vir a realizar-se numa dada área. Se concorrerem, esses possíveis candidatos são depois colocados num honroso segundo lugar, ou tornam-se candidatos fantasma pois não concorrem nem nunca mais se ouve falar deles. Ainda assim, isso ocorre muito tempo depois e ninguém estabelece o nexo de causalidade.
COMANDITA NOS JÚRIS: Para resolver um concurso a contento, basta convidar velhos amigos, que se sabe serem cooperantes. Recolhidos os processos dos candidatos, o comandante da sacanagem faz a correr umas tabelas com os critérios e um relatório preliminar para a seriação. Com a desculpa de ajudar os colegas a terem menos trabalho, serve também o propósito de lhes transmitir quem se quer que ganhe.
Tem riscos. Pode falhar se esse material de base tiver erros factuais e se os colegas cábulas do júri copiarem o material e não detectarem os erros. Algum candidato perdedor reclama, mete processo em tribunal administrativo.
A sentença, chega no mínimo meia dúzia de anos depois. A trama é desmascarada. Não faz mal! Determinou-se que se repita a reunião de seriação. Passam-se os documentos a limpo e lá volta a ganhar quem se pretendia. Nunca se viu ser atribuída responsabilidade civil ou criminal a um membro do júri que tenha tido esses comportamentos dolosos. Assim, agem a coberto da impunidade. E os DDTs, sabem da crise, mas nem promovem qualquer correção a esses mafiosos membros do júri.
DOIS EM UM: Este é rebuscado, passa-se no segredo dos DDTs: uma vez identificado um bom candidato no scouting, teve de se negociar que @ cônjuge também tinha de vir. E como Professor@ Associad@! Para os DDTs, a compra aos “pares” não lhes levanta dúvidas. O curioso é que a excecionalidade dos CVs do casal é muito pouco evidente. Assisti há pouco tempo!
IST, Paulo Oliveira
3 de março de 2026
Será que é isto que os nossos diáconos querem ?
Expresso, 20 de fevereiro de 2026, p.2

Paulo Oliveira
É Só Fumaça…
Já tínhamos dado conta da pouca atenção que os Conselhos de Gestão do IST têm dado às questões da Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, nomeadamente na nota intitulada “A Terra Treme” mas o IST mantém-se “firme e hirto”, enviada no dia 4 de novembro.
Nesse mesmo domínio, recebemos no dia 9 de dezembro o email do gestor da Torre Norte, tendo como destinatários os membros da lista geral do DEEC:
[Deec-geral] Fwd: Formação Equipas de Segurança – Pavilhão de Eletricidade e Torre Norte
Boa tarde,
Reencaminho informação sobre Simulacro, com evacuação total, a realizar no Pavilhão Eletricidade e Torre Norte no próximo dia 17/12/2025, bem como ações de formação/sensibilização a decorrer nos próximos dias.
Anexo os mapas das zonas dos edifícios a verificar em caso de emergência, bem como a lista dos inspetores de varrimento registados até o dia de hoje.
Cumprimentos,
PXXX BXXX
Tanto quanto me lembro, desde a inauguração da Torre Norte, em 1994, é a TERCEIRA vez que se faz um simulacro. O primeiro foi na década de 90, o segundo em 2018 e o terceiro agora em 2025. Estes timmings só por si confirmam a opinião generalizada que falta atenção na área da Segurança, Higiene e Saúde, por parte dos Órgãos de Gestão do IST. Em última análise, a segurança dos funcionários docentes, não docentes e alunos que passam boa parte do dia de trabalho nas instalações do IST, é frequentemente descurada.
No que diz respeito ao simulacro propriamente dito, no dia 16 de dezembro fomos esclarecidos com mais detalhes, no seguinte email também do gestor da Torre Norte, destinada de novo à lista geral do DEEC.
Boa tarde,
Venho pelo presente recordar a realização de Simulacro, com evacuação total, amanhã dia 17/12/2025 no Pavilhão de Eletricidade e Torre Norte.
Simulacro Pavilhão 10:30 h
Simulacro Torre Norte 14:30 h
Foram colocados painéis com informação sobre o simulacro e procedimentos no Átrio da Torre Norte, e junto às entradas do Pavilhão de Eletricidade.
Podem ser encontradas, em anexo, lista de inspetores e áreas de varrimento.
Cumprimentos,
PXXXX BXXXX
Da documentação então enviada em anexo, podia-se facilmente concluir do aparato envolvido, excedendo a duas dezenas de funcionários com tarefas atribuídas. Para dar contexto, foram também incluídas várias plantas e a marcação de zonas de relevo para o exercício.
Vários colegas reorganizaram o seu dia de trabalho, por forma a que a evacuação programada para as 14h30 não atrapalhasse a sua atividade. Claro que quando chegaram de volta após o almoço tardio, imediatamente se aperceberam de que o caos estava instalado. O verdadeiro simulacro ainda não se tinha iniciado. Só mais de 30 minutos depois da hora prevista se ligaram as Máquinas de Fumo, para dar mais realismo ao simulacro. Já depois das 15h, tocou finalmente o alarme de incêndio. Conforme ouvi um aluno dizer ao sair “É só fumaça”. Reminiscências intergeracionais, por certo…
Outro detalhe que mostra bem como esta casa funciona, é o facto de no momento do simulacro, estarem colegas de outros departamentos a lecionar aulas em salas da Torre e um deles inclusive num anfiteatro a fazer um MAP. Ninguém se lembrou de avisar os restantes departamentos do simulacro. Alguém se esqueceu que outras UCs de outros cursos podem ser lecionadas em qualquer dos espaços de um determinado edifício!
O Regime Jurídico da Segurança Contra Incêndio em Edifícios (SCIE) – Decreto-Lei n.º 220/2008 e a Portaria n.º 135/2020 são as leis enquadradoras deste assunto. Nesta portaria, encontra-se que para os edifícios da Classe IV (escolas) a periodicidade dos simulacros é de UM ano. No IST faz-se a cada DEZ ou mais. Se algum dia acontecer um problema sério, teremos o mesmo passa-culpas tão português. Quem já esteve em Inglaterra, onde se fazem simulacros semanais, a diferença de atitude é gigante. Nesta dimensão, os donos dISTo tudo esquecem-se de se comparar com as universidades de topo.
Com uns Órgãos de Gestão tão cuidadosos e um Núcleo de Segurança, Higiene e Saúde tão competente, podemos estar descansados… Finalmente percebo porque há colegas que trabalham na Torre e têm no gabinete um cabo. Em caso de urgência saem pela janela a fazer rapel.
Paulo Oliveira
(20 de dezembro de 2025)
Anexo A

Isto é tudo a gramar
ZERO euros do Orçamento do IST para a rubrica de verbas para “Promoções gestionárias” no Orçamento do IST para 2025. Explicação espontânea do Grande Educador do Povo, no ponto de Informações do Plenário do Conselho Científico de 10 de dezembro de 2025. A Universidade de Lisboa é que liderou o pedido de mudança de verbas, depois da publicação dos Despachos n.º 3830/2025 e n.º 3894/2025. O relato continuou com a notícia que a Direção Geral do Orçamento não permitiu, mesmo depois de insistência do nosso Reitor. O PIST até se ofereceu para mostrar a carta, tal era a cara de incredibilidade de alguns dos presentes na sala. E afirmou ainda que a grande maioria (chegou a aventar 95%) das IES (Universidades e Politécnicos) também não o iam fazer.
Alguém lembrou que os politécnicos estavam a a fazer estas promoções gestionárias, conforme comunicado por nota informativa do SNESUP. E ainda se mencionou que após uma petição pública da Universidade do Porto, o Reitor anunciou que iria encontrar solução. Aí o PIST deu mais umas explicações que havia IES que tinham aquela rubrica diferente de zero. Por exemplo na Faculdade de Ciências encontraram uma solução: usaram as verbas para promoções gestionárias de funcionários (?). Rubrica essa que era comum ser usada nessas entidades. Mas que no IST tal nunca foi usado, e estava a zeros no orçamento de 2025. Mais uma classe no IST, a dos funcionários não docentes. Além de sujeita ao desastroso espartilho do SIADAP, em que as quotas na avaliação limitam a progressão, ficámos então a saber que ao contrário de outros Instituições de Ensino Superior, no IST nada. Uma limpeza. Onde já vai o principio de trabalho igual, salário igual. Anacronismos…
Na rubrica em causa, agora que o orçamento para 2026 está feito e será aprovado em breve, já se sabe que pouco haverá nessa rublica para 2026. De certeza menos do que o 1% da massa salarial dos docentes, permitido pelo despacho conjunto do Ministro das Finanças e do que nos tutela. O Orçamento em si ainda está no segredo dos Deuses mas será publico em breve. Perguntado por quantos serão os contemplados, seguiu-se uma descrição meio atabalhoada, com uns números pouco convincentes. O que foi bem explicado e sublinhado, foi que as progressões gestionárias eram da responsabilidade do PIST, ouvido o Conselho de Gestão. Que é o PIST que manda niSto tudo, já nós sabíamos.
A certa altura, aí já com toda a convição, informou o Plenário que aqueles que recentemente progrediram por terem tido dois excelente sucessivos, “zeraram” o acumulador dos pontos acumulados. Perguntado qual a lei em que vinha tal disposição, invocou o RADIST. Como se esse regulamento interno do IST pudesse sobrepor-se ao ECDU, onde de certeza tal não é dito. Foi feito ainda o pedido de uma informação relevante: um histograma com a informação de quantos colegas estão em cada categoria e em cada escalão. Ficou a promessa do pedido ser feito à DRH. Fiquemos em alerta.
Este último assunto, só com ajuda externa pode ser elucidado. Recorreremos à opinião dos sindicatos em breve. Este é um assunto importante para perguntar a opinião aos putativos candidatos a PIST, para sabermos ao que vêm.
Inspirado no que dizem os nossos comediantes de serviço, e infelizmente recentemente um político radical, há razões para dizer adaptando à nossa realidade, em que estamos há 20 anos à espera das promoções gestionárias, “Isto anda tudo a gramar!”
Jorge Coelho d’Eça
11 de dezembro de 2025
( dia de greve geral)
* De acordo como Dicionário online da Priberam, em https://dicionario.priberam.org/gramar
Gramar
(gra·mar)
Conjugação:regular.
Particípio:regular.
verbo transitivo
1. Pisar (o linho) com gramadeira. = TRILHAR
2. [Informal] Comer, beber, engolir.
3. [Informal] Aguentar, aturar, suportar.
4. [Informal] Gostar muito de (ex.: gramou à brava andar de avião). = CURTIR ≠ DESGRAMAR
5. Levar (uma tareia).
Da Governança do Técnico
Como tratar da governação do IST? Os donos dISTo tudo
puserem em prática uma solução discreta, amadurecida por vários mandatos com passagens de pasta de Presidentes para Vice-Presidentes, todos da mesma cor e com estratégia, tática e execução bem afinadas. Esta baseia-se nos seguintes quatro pilares.
1 – Legislação da República na forma de Decretos Lei, Estatutos e Despachos
Para enquadrar as atividade, há um conjuntos de leis a serem cumpridas. Mas há que ser prático e objetivo…
A estratégia é tomar as rédeas do IST na mão e aliviar os órgãos das responsabilidades. Começa-se pela nomeação dos de confiança para ficarem a presidir aos órgãos (CC, CP e CE) e outras posições de decisão (Departamentos, Provedoria,…). Recorre-se depois a um vasto conjunto de delegações de competências com capacidade de sub-delegação. Assim, já os donos dISTo tudo ficam com os lugares chave controlados, distribuídos por pessoas de confiança. Ou seja, tomam conta da máquina.
Se, porventura, se esqueceram de algum detalhe, até podem ter de fazer delegações com efeitos para atos pretéritos. Dá nas vistas, mas podem! Afinal de contas, são os donos dISTo tudo. Após as delegações das competências com possibilidade de sub-delegações, os apaniguados esquecem-se de prestar contas aos órgãos legitimamente responsáveis pelos assuntos. Assim, as decisões ficam em locais mais discretos e os arranjinhos podem-se fazer mais à vontade. A colaboração dos aliados de longa data e de subalternos, por vezes mais papistas que o papa, permite que se exerça o pequeno poder e se sigam escrupulosamente as ordens de cima.
A tática a utilizar é os líderes esquecerem-se (seletivamente) de alguns detalhes importantes. Por exemplo, esquecerem-se de pedir opinião ou parecer a quem se deveria pedir, de acordo com os estatutos, regulamentos e deliberações. Até há quem desvalorize a necessidade de pedir aprovação aos membros de órgãos que estatutariamente têm essa responsabilidade, trocando-a pela suficiência da consulta a quem muito bem lhes apetece. Os de perto dizem sempre que sim e os amigos também.
E o que fazem os colegas da brigada do reumático que, quando vêm um jovem cinquentão de sucesso chegar a um posto de decisão e decidir fazer como manda a lei?… Vêm logo com a história das tradições (“sempre se fez assim”) e das dúvidas metodológicas (“quem garante que ninguém vai impugnar esta nova forma?”)… Se se argumenta com a legislação, lá se tem de ouvir que “cada docente parece um advogado” mas que “pareceres, arranjam-se para todos os gostos.”
E, quando nalgum assunto cabeludo, em que se tem de obter pareceres em vários órgãos, se vai alterando o que está a ser analisado, de tal forma que o que tem de ser implementado no final não é bem o que se discutiu. Os enganos, esses são sempre no sentido de fazer com que os decisores de topo façam como lhes apraz… Na Assembleia da República já houve momentos em que se constatou a relevância da mudança de uma vírgula. Aqui vai ao naco de texto que aparece, desaparece, ou é alterado porque… são os donos dISTo tudo.
Então e quando os despachos exarados por Reitores e Presidentes dos IES são aplicados depois dos mesmos terem terminado os mandatos. E se aqueles em quem foram delegadas competências, entretanto tenham também terminado o mandato? Eleitos, continuam alegremente a usar a delegação, fora de tempo. À vontadinha, que são os donos dISTo tudo…
2 – Regulamentos e Regimentos internos
Para pôr toda a gente a “piar fininho”, regulamenta-se. Farta e abundantemente. A arte suprema é governar com regulamentos em constante mudança. Alguns regulamentos com mais de uma versão por ano. Assim, vai-se torcendo o que se tem de cumprir até confundir os destinatários. Excepções e interpretação de situações não contempladas, fica desde logo escrito que são para os donos dIST tudo. Assim fica tudo mais composto e discreto.
Ou aqueles voluntariosos, que lendo que podem ser feitos regulamentos locais, por exemplo num dado curso, metem a mão à obra. Redigem e fazem aprovar onde de direito. Qual não é a surpresa quando, no final, ouvem os donos dISTo tudo dizer que é só seguir o regulamento geral, e não levantar ondas.
Nos órgãos, para refrear os ânimos reformistas ou contestatários, os diligentes mandaretes tratam logo cedo, no início dos mandatos, de fazer aprovar regimentos para limitar ao máximo o poder dos novos membros eleitos. Aprovações muito rápidas de regimentos, em que se copiam os do mandato anterior. E com pouca discussão. Se possível sem alterações. Muitos dos que votam logo a favor, nem os leram. É importante legitimar os velhos métodos, já com provas dadas, enquanto os novos eleitos ainda não conhecem os cantos à casa.
Começando o neófito a assistir ao desenrolar dos trabalhos no órgão, com o passar do tempo, espanta-se por verificar que não se cumpre o regimento aprovado. Nem a legislação de base. E a desculpa é para rir: “aqui é costume fazer-se assim.” E se se puser algo em causa e se tentar fazer cumprir argumentando com a lei, o argumento extremo é que o que estão a fazer “é para o bem do Técnico.” Deixa-se subentendido que quem não quiser fazer à vontade dos donos dISTo tudo, não quer o bem para o IST. Com este fantasma já se pararam muitos. Arrogância!
Se se tiver mesmo que alterar algo, nada como pedir imediatamente parecer ao Gabinete Jurídico. Dois ou três meses de atraso já ficam garantidos. E o colinho vem depois, já que o resultado será o apoio aos métodos usados. Ou não fossem eles funcionários contratados pelos donos dISTo tudo.
3 – Atas
Há em Portugal umas leis, e.g. CPA, RJIES, em que se exige a feitura de atas nas reuniões dos órgãos colegiais… Uma chatice porque fica tudo muito exposto e a saber-se detalhes. E muitas vezes os nomes dos intervenientes aparecem, bem como as suas opiniões, o que os pode comprometer. Logo,… a arte suprema é fazer reuniões sem atas. Assim, faz-se o que apetece e não se deixa rasto. Não fica registado quem votou, nem como. Não se tem de se prestar contas a ninguém nem de dar explicações a quem vier pedir responsabilidades ou justificações. E o tempo, trata de tornar tudo difuso e legal…
Se se tiver mesmo de fazer atas, fazem-se. Sumárias, muito sumárias. No final escondem-se bem. Pode-se apresentar uma desculpa, por exemplo o Regulamento Geral de Proteção de Dados. Mesmo quando não se aplica. Depois publicam-se umas “decisões”. Minimalistas, claro! Quando necessário, faz-se emanar dos órgãos umas deliberações, para manter as hostes todas a marchar para o mesmo lado. Aí o “ter de” e o “dever de” confundem-se, mas é de propósito.
E decisões comunicadas oralmente? Mais uma arte que não está legitimada em nenhuma lei atual mas muito praticada na casa. Foi o método preconizado nos Processos de Valorização: É usado nos Departamentos e na Comissão de Vagas do Conselho Científico, para comunicar as decisões finais. É uma limpeza. Sem deixar rasto. Se fôr bem (mal) feito, enterrando os documentos relacionados numa comissão, até se pode penalizar os incautos que reclamaram para o CC, como segunda instância. O CC do IST deve ser o único órgão consultivo no Estado Português que age como decisor científico e tribunal “penal”. E não é no plano teórico. Que o digam os colegas que tiveram as “penas” aplicadas.
Também já vi convites/ameaças veladas para ilegalidades, ou vá lá, indicações para se “fechar os olhos” a certos atos e metodologias, com fanfarronice pelo meio: “somos os melhores,” “esta atividade é única no país,” “foi muito gabada pelos nossos colegas de outras IES,” “não deitem o bébé fora com a água do banho”… Fantasmas e manipulação evidente, para fazerem como lhes apetece e sem deixar rasto. Os donos dISTo tudo têm a máquina oleada.
4 – As outras Reuniões e Processos de Decisão
As desconformidades nos pilares legais anteriores são praticadas no dia a dia. A breve descrição das mesmas, embora ácida e um pouco jocosa, é factual. De seguida, neste pilar as provas escasseiam. Daí que se tem de dizer desde já que se vai descrever alegadamente como se pode ir ainda mais fundo na Realpolitik académica.
Quantos não receberam já uma chamada telefónica de alguém, que vos tomar uma posição contra o vontade dos donos dISTo tudo? Fora de horas e para os meios de telecomunicação privados, alguém a querer fazer aquela diplomacia de “tête-à-tête”, que limpa que se farta, e tenta chamar à razão alguma ovelha tresmalhada…
E as chamadas ou os encontros furtuitos nos corredores, ou antes ou depois de alguma atividade académica, onde é feita a sondagem sobre uma opinião ou a disponibilidade para desempenhar alguma tarefa menor… Assim as escolhas são mais discretas e as decisões menos contestáveis. Quando se dá por isso, já está tudo resolvido e uma solução a ser construída.
E aqueles orçamentos, já com 6 dígitos, que depois de muito se insistir lá aparecem. Mas com uma parcela gorda em aberto… Depois, a alocação da mesma não é clara. As decisões são tomadas no recato de algum gabinete ou por uma comissão de amigos. Sem ata, claro. E a execução não é escrutinada nem validada… Uma limpeza! Na realidade, ano após ano, não é escrutinada nem validadada a execução dessa verba nem do orçamento como um todo.
Departamentos há, que para escolher um possível candidato a um cargo relevante, a ser validado por eleição, filtra antes os candidatos em reuniões de órgãos que não existem. Chama-se por exemplo os três últimos que desempenharam esse papel, alinhados com os donos dISTo tudo, e ponderam se o candidato que está a querer avançar consegue vestir o fato à medida que tem de usar. E se é trabalhador e cordato. Ou seja, mais um “yes man”.
E comissões com regras não escritas mas que “historicamente” só podem terminar por unanimidade. Aí, cada um apresenta os argumentos mais vantajosos e como não há regras, ninguém está errado e ninguém pode argumentar factualmente. É só ir convencendo os colegas. Longas e apaixonadas discussões com alianças e ataques de conveniência. No final, lá se chega a uma solução, nem que seja por exaustão. E os intervenientes estão todos comprometidos com as decisões – é a vantagem da unanimidade. Com o apelo ao sigilo, o silêncio trata do resto. E sem atas, claro.
Há também uma técnica interessante de manipulação de audiências, a alegação da receção de opiniões, cartas, emails ou telefonemas de algum dono dISTo tudo. Não são apresentados mas que já indicam o que se deve fazer. É só seguir as indicações…
Nalguns casos de órgãos colegiais, o melhor é dizer que o órgão é consultivo. Mesmo que no estatuto ou regulamento não seja isso que diz. A deliberação a tomar com parecer obrigatório do órgão torna-se numa consulta/auscultação dos seus membros e a decisão posterior do apaniaguado que está à frente fica mais discreta. Assim, este mostra o seu poder e fica de bem com as altas esferas académicas.
“E la nave va!”
Federico Fellini, 1983.
Jorge Coelho d’Eça
Sobre Cultura Académica e Liderança Intelectual na Universidade Pública Portuguesa
A observação continuada do funcionamento da universidade pública portuguesa revela um fenómeno estrutural que merece atenção: a rarefação progressiva de figuras com verdadeira estatura intelectual e capacidade de liderança científica.
Em vários sistemas universitários europeus — incluindo o francês — foi comum ao longo de décadas encontrar professores cuja autoridade científica e visão académica moldavam gerações.
Na minha área, Professores como Hans Werner Drawin ou Jean-Loup Delcroix exemplificavam um modelo de liderança assente em:
▫️ elevada exigência intelectual
▫️ independência crítica
▫️ formação científica sólida e abrangente
▫️ responsabilidade institucional
▫️ capacidade natural de orientar e inspirar comunidades académicas
Na universidade pública portuguesa, esta combinação tornou-se menos frequente.
As causas são múltiplas e estruturais:
➤ Pressões administrativas que drenam tempo e energia
➤ Hierarquias rígidas que desincentivam pensamento independente
➤ Culturas internas de conformidade, mais do que excelência
➤ Avaliações baseadas em métricas formais, não em profundidade científica
➤ Carreiras condicionadas por lógicas internas, nem sempre alinhadas com mérito académico
Este contexto gera uma situação paradoxal: fala-se em “universidade”, mas observa-se frequentemente um comportamento institucional próximo de vassalagem académica — dependências tácitas, clientelismo subtil e ausência de figuras que assumam liderança intelectual pela força do conhecimento e do exemplo.
Isto não significa falta de competência individual dentro das instituições.
Significa, sim, que o sistema atual não favorece — e por vezes desencoraja — o aparecimento de vozes independentes, densas e formativas, como se encontra noutras tradições universitárias europeias.
Por isso, a reflexão torna-se necessária:
⚡ Uma universidade que aspire a ter impacto científico real precisa de criar condições para que surjam novamente figuras intelectuais com visão, autonomia e exigência — não apenas gestores académicos, mas verdadeiros formadores de pensamento.
Abraço,
Mário Pinheiro ( linkedin.com/in/mario-pinheiro-07715614 )
O IST do Futuro: Visão Estratégica para uma Instituição Integralmente Otimizada
É com grande sentido de responsabilidade — e um entusiasmo quase administrativo — que apresento de seguida o modelo de referência para o futuro do IST. Um modelo que elimina, de forma cirúrgica, os elementos mais dispendiosos, imprevisíveis e, sejamos francos, humanamente inconvenientes da vida académica. Partilho assim a visão: Como poderá ser o IST no futuro?
Sem professores! Já não farão falta. A IA ensina. Teóricas em vídeo, práticas personalizadas, com tutor a la anúncio recente do nosso ministro na WebSummit… E os laboratórios, esses espaços antiquados onde se aprendia fazendo?… bem, serão certamente substituídos pela sempre formativa “escola da vida”.
Os carolas que ainda teimam em fazer investigação subscreverão um agente de IA diligente, que escreve papers e os submete ao arXiv. Num primeiro momento, só têm de dar o mote. Numa fase posterior, configuram um assistente de IA para gerar ideias, testam as soluções apresentadas com recurso a simulações, configuradas com os agentes de IA especializados, e depois é só pô-las em prática. Virtualmente, algures no universo digital, claro.
Para a escrita de propostas de projetos e escrita de relatórios também se recorrerá a agentes de IA. E não serão dos primeiros, que há já por aí muitos espertos que estão já a dar os primeiros passos nesse metier. E as revisões dos projetos e dos papers? Basta no agente IA certo, escolher o perfil –bonzinhos ou chatos ou mesmo, para os mais nostálgicos da velha academia, os implacáveis que reprovam tudo por desporto. Numa fase posterior ligam-se os produtores aos consumidores desses materiais, mais uma vez agentes de IA. Nenhum desses agentes necessita de ter existência física. É só poupança.
Sem alunos! Naturalmente, também os alunos deixarão de ser necessários no campus. Poderão trabalhar a partir de casa, ou ainda melhor, de onde quiserem, em eternas férias, com algumas pequenas interações, quando lhes der mais jeito. Sim, que o IST do futuro estará aberto 24 horas por dia. Poderão finalmente ter o conforto, recato e tempo livre que desejarem. E os alunos poderão ser em número ilimitado. Acabaram-se os numerus clausus! As propinas serão com valores menores, mas também é só lucro! Finalmente a escola inclusiva. Cada um dos alunos poderá arranjar um agente de IA, que lhes faz os testes e exames. com um desempenho irrepreensível — porque o mérito, como tudo o resto, também se automatiza. O IST estará sempre aberto, mas vazio — um feito só ao alcance das instituições verdadeiramente modernas.
Sem instalações físicas. No panorama idílico que aqui se explana, no IST é só poupança! Deixa de ser necessário pagar água, luz, segurança, manutenção, reagentes, consumíveis, reparações, e manutenção. Com esta estratégia desaparecerão todas as despesas, como que por milagre. Já agora, sem edifícios, que já não farão falta, nem muros desnecessários. Aí sim, é que o IST se vai abrir completa e integralmente à sociedade.
O futuro grande educador. Esta é uma realidade, que aguarda por um grande gestor para ser concretizada. O iluminado que perceberá que pode vender este quarteirão, espaço nobre em Lisboa, para mais uns hotéis de luxo, alojamentos locais e restaurantes da moda, com estrelas Michelin e tudo. Por essa altura, as clouds vão para o Tagus Park ou para Sacavém, onde fôr mais barato. O que der mais lucro vende-se. Numa fase posterior negoceia-se a ida da toda a informação para uma Cloud qualquer. E usam-se os Clusters disponíveis para a computação necessária. Encomenda-se a um agente de IA especializado uma página bonita, interativa e dinâmica na divulgação das novidades, mesmo que virtuais, e aliciadora. Os cursos serão desenhados para o perfil de cada um dos potenciais alunos. Que bonitas cerimónias que algumas dessas inovadoras iniciativas irão dar. O tempo vai passando, os professores e funcionários atuais vão atingindo a idade da reforma e paulatinamente o IST vai dando cada vez mais lucro. E assim, passo a passo, o milagre económico concretiza-se.
Para quem tiver dúvidas, aqui vai um conselho conspirativo: muitas instituições, tanto universitárias como empresariais, já iniciaram discretamente as primeiras fases desta visão. Portanto, não há tempo a perder. Os agentes de IA disponíveis aguardam instruções. É seguir adiante, com plena confiança.
Todos para o hiperespaço!
É só carregar no Enter.
Paulo Jorge Oliveira
Domingo, 16 de novembro de 2025, pelas 19h23min.
Disclaimer: Apesar deste tom sonhador, ligeiramente evocativo do melhor de Miguel Esteves Cardoso nos seus anos no Independente, assegura-se ao leitor que nenhuma substância ilícita, controlada ou gourmet foi consumida durante a redação deste texto.
Caros colegas, docentes e investigadores do IST,
Quando há mais de um ano um grupo relativamente pequeno de pessoas se reuniu num dos anfiteatros do Pavilhão Central, movidas individualmente por um sentimento de grande insatisfação face à forma como a escola é gerida e inconformadas com os resultados produzidos pelo modelo de ensino posto a funcionar em 2021/22, estava cada um de nós longe de supor que não estava tão só como parecia naquela altura.
A prova tivemo-la nas eleições para os órgãos da escola. Sobretudo, mas não exclusivamente, no único órgão em que apenas duas listas se apresentaram a votos. O resultado da lista M, constituída maioritariamente por pessoas normalmente arredadas destas andanças, na Assembleia de Escola excedeu a mais otimista das expectativas conseguindo granjear a confiança de quase tantos eleitores quanto a lista do establishment, conquistando 14 dos 30 lugares a votos, que não vai poder preencher por se ter apresentado com apenas 10 pessoas para aquele órgão.
O que nos motivou, e motiva ainda, é o sentimento de que é preciso participar na vida da escola de forma ativa, ao invés de se ficar à beira da estrada a ver a banda passar, e que é preciso combater o deficit de transparência, que lentamente se foi instalando ao longo dos anos.
O que ficou claro nas eleições na nossa escola é que os colegas que têm assumido funções de maior responsabilidade na condução dos seus destinos perderam o contacto com sectores e pessoas em número significativo. As fábricas de consensos alargados que vão tomando decisões à porta fechada, que depois se dignam a partilhar com os restantes em formato pronto a vestir, perderam representatividade, alcance e largura.
Face a esta constatação, não podia o movimento para a Mudança, Transparência e Participação, que iniciou trabalhos numa já longínqua tarde de Junho de 2023, autoexcluir-se das eleições para a Universidade de Lisboa, permitindo que quem perdeu abrangência e representatividade dentro de portas mais estritas transporte essa mesma falta de abrangência e representatividade para dentro das mais latas portas da Universidade de Lisboa.
Assim, por um imperativo de lealdade para com aqueles que em nós confiaram e de lealdade aos valores que nortearam a ação do movimento para a Mudança, Transparência e Participação, não há outra escolha que não seja apresentarmo-nos de novo a votos, agora para os 8 lugares a que o IST tem direito no Senado da Universidade de Lisboa. O peso do IST no Senado é de 25% dos lugares para Docentes e Investigadores, sendo a escola da UL com maior peso relativo no corpo dos Docentes e Investigadores.
Esperamos poder contar de novo com a vossa confiança, apoio e voto em nome de melhor transparência, melhor participação e mais adequada representatividade.
O Mandatário da lista M para as eleições para o Senado da UL.
Carlos Bispo
Caros Colegas Docentes e Investigadores,
O Técnico/ULisboa é, há décadas, um espaço onde as atividades de Ensino, Investigação Científica e Tecnológica e de Engenharia constroem-se coletivamente. Hoje, porém, enfrentamos desafios que ameaçam não apenas a nossa instituição, mas a dignidade da própria profissão académica.
A Lista M nasce da convicção de que, apesar das diferenças disciplinares ou perspetivas individuais, compartilhamos valores irrenunciáveis:
- O respeito pelo tempo dedicado ao ensino e à investigação de excelência;
- A defesa da autonomia intelectual como princípio fundador da academia;
- A busca por critérios de avaliação justos, que reconheçam a complexidade do nosso trabalho sem reduzi-lo a métricas simplistas ou a instrumentos de gestão transacional.
Não somos números em relatórios de produtividade, nem peças substituíveis numa máquina burocrática. Somos educadores, investigadores e, acima de tudo, guardadores de um legado centenário de inovação e formação de gerações, que transcende rankings efémeros e ciclos de financiamento.
Este momento eleitoral não é sobre projetos individuais ou siglas. É sobre unirmo-nos em defesa do que nos define:
- A ética do rigor científico;
- O compromisso com as novas gerações;
- O direito a uma carreira digna e estável.
A abstenção ou a fragmentação só servirão a quem vê a universidade como um campo de extração de recursos, não como um bem comum.
Votar na Lista M é votar:
- Pela unidade de docentes e investigadores;
- Pelo respeito à nossa missão coletiva;
- Pela esperança de um Técnico/ULisboa que honre o seu passado e não comprometa o seu futuro.
A Nossa Voz é Coletiva. O Nosso Voto é Pela Dignidade.
Mário Pinheiro