Percorrida a chave dicotómica para classificação da fauna ISTiana, com um conjunto de sins e nãos mais ou menos óbvios, chegamos à sub-espécie dos aspirantes a DDT. É uma população com uma certa dimensão, que tem como habitat os campi do IST. Cada um desses espécimes aspira sempre a subir e a ter mais poder. Numa organização grande, complexa e supostamente “orientada para a excelência”, o mais notável não é a competência nem a inteligência. Portanto têm de pôr as suas outras faculdades ao serviço dos DDTs.
Segue uma tentativa de sistematização, com uma ponta de sátira…
I. Os submissos funcionais
O yes-man – Tem uma coluna vertebral dobrável. Não tem opinião: tem eco. A sua principal competência é transformar a opinião do superior na sua convicção íntima, com um atraso máximo de poucos segundos. É o tradutor oficial da estupidez em linguagem de alinhamento estratégico. É muito útil em reuniões: reduz a fricção, simplifica a realidade e acelera o disparate.
O voluntarioso – Está sempre disponível, sempre motivado e quase sempre errado no essencial. Oferece-se para tudo, adora “agarrar desafios” e confunde movimento com progresso. Confunde disponibilidade com utilidade, agitação com eficácia e boa vontade com talento. É aquele que, vendo um incêndio, propõe um grupo de trabalho para estudar combustão colaborativa.
O idiota útil – Não é necessariamente mau. Só é perigosamente disponível para ser instrumentalizado. Transporta agendas alheias com o entusiasmo moral de quem julga estar a servir uma causa nobre, moderna ou “estratégica”. Funciona como estafeta do mal-organizado: leva a mensagem sem perceber a encomenda. É o imbecil com iniciativa: combinação historicamente destrutiva.
II. Os predadores organizacionais
O sacana – Espécime clássico. Move-se bem em zonas cinzentas, fala por insinuação e assume responsabilidade apenas por sucessos retroativos. Nunca empurra ninguém diretamente; cria apenas as condições para que o outro caia sozinho. Tem um fino sentido de oportunidade e uma relação muito livre com a decência.
O filho da mãe encartado – É o sacana maratonista. Domina jargão, timing, governance, stakeholder mapping e a arte da facada institucional com enquadramento metodológico. Já não intriga à bruta; “reposiciona narrativas”, “recalibra expectativas” e “protege a organização” de pessoas mais íntegras do que ele.
O carreirista glacial – Não odeia ninguém em particular; simplesmente pisaria um campus se isso melhorasse o seu lugar na fotografia. Vê colegas como degraus, equipas como plataformas e princípios como adereços de entrevista. É cordial, impecável e vazio. Cumprimenta com educação, elogia em público e faz contas em privado.
III. Os fanáticos de pertença
O tribalista – Não trabalha para a organização; trabalha para o clã. Divide o mundo em “os nossos”, “os deles” e “os que ainda podem ser cooptados”. O mérito, para ele, é uma superstição simpática que se invoca quando favorece a própria facção.
O guardião da capela – É o sacerdote do pequeno feudo. Defende procedimentos, territórios e minudências com o fervor de quem protege a civilização ocidental, quando na verdade protege apenas a gaveta onde mora o seu poder. Adora dizer: “sempre se fez assim”, frase que em muitas instituições substitui Constituição, estratégia e pensamento.
O purista ideológico – Prefere ter razão no catecismo a resolver o problema real. Tudo é lido através de um quadro moral, doutrinário ou identitário que simplifica o mundo e complica o trabalho. Não gere pessoas nem factos. Gere ortodoxias.
IV. Os artistas da aparência
O gestor de PowerPoint – Não produz realidade; produz slides sobre a possibilidade de um dia alguém a produzir. Tem talento para converter banalidades em “roadmaps”, atrasos em “redefinições de fase” e confusão em “complexidade transformacional”. É, por excelência, um decorador do vazio.
O vendedor de fumo – Chega com léxico de alto calibre: disrupção, inovação, mudança de paradigma, reinvenção. Ao fim de seis meses percebe-se que embrulhou generalidades conhecidas em inglês técnico e as faturou como visão. É menos um profissional do que um fenómeno atmosférico.
O cosmético moral – Precisa de parecer virtuoso em permanência. Não quer necessariamente fazer o bem; quer sobretudo ser visto do lado certo da fotografia ética. Muito forte em declarações, códigos, compromissos, sensibilidades e outras formas de santidade de gabinete.
V. Os ingénuos nocivos
O bem-intencionado devastador – Tem alma pura e consequências catastróficas. Acredita que boas intenções compensam falta de discernimento, e que entusiasmo pode substituir competência durante tempo indefinido. Costuma deixar atrás de si processos confusos, equipas exaustas e uma aura de virtude ofendida.
O missionário da mudança – Quer reformar tudo, de preferência sem conhecer nada.Desconfia da experiência porque a acha “resistente”. Desvaloriza limites porque os confunde com pessimismo.É o tipo que entra num sistema complexo como quem entra numa cozinha alheia para “dar frescura” e sai deixando o fogão ligado.
VI. Os profissionais do pequeno poder
O porteiro do acesso – Controla agendas, informação, contactos, assinaturas ou permissões como um senhor feudal de micro serviços.Extrai importância do facto de os outros precisarem dele para passar. Não manda muito, mas bloqueia magnificamente.
O regulador de minudências – Nunca terá uma visão estratégica, mas possui um radar sobrenatural para a vírgula em falta, a rubrica errada e o formulário desatualizado.É imprescindível e insuportável, por vezes em simultâneo. Representa a vingança do detalhe sobre o propósito.
O intimidante de corredor – Forte fora da ata, valente à porta fechada, ambíguo quando é preciso assumir. Exerce poder por tom, proximidade e insinuação. É um autoritário de baixa cilindrada: raramente lidera, mas estraga bastante.
VII. Os sobreviventes adaptativos
O camaleão – Nunca sabemos bem o que pensa, e isso é porque ele trabalha arduamente para que nunca se saiba. Adapta-se à chefia, ao vento, ao ciclo político, à narrativa e à temperatura ideológica da semana. É o sobrevivente perfeito de instituições sem memória.
O equilibrista moral – Sabe que há coisas erradas, mas calcula com minúcia em que grau exato convém fingir que não viu. Não é vilão. É um contabilista do carácter. Vive na zona onde a consciência ainda respira, mas já paga renda ao medo.
O cínico profissional – Já viu tudo, já não acredita em nada e faz dessa exaustão uma identidade intelectual. Tem sempre uma observação mordaz, um sorriso lateral e nenhuma disponibilidade para corrigir o que denuncia. É a lucidez quando desiste de ter coragem.
E há ainda os que nada ajudam, mas pensam que podem aspirar a DDTs…
VIII. Os sabotadores passivos
O resistente viscoso – Nunca diz frontalmente “não”; limita-se a atrasar, a pedir mais validação, a levantar reservas processuais e a convocar prudência. Prefere dissolver qualquer iniciativa em prudência, validação, parecer, circuito, reformulação e reenvio. É a burocracia em forma humana. Se lhe derem uma tarefa simples, devolve um circuito de aprovação em quatro etapas e um risco reputacional hipotético.
O especialista em objeções – Não constrói nada, mas identifica falhas em tudo. Tem a vantagem de parecer inteligente, porque a crítica é sempre mais barata do que a solução.
É um talento particularmente valorizado em ambientes onde o medo de errar já venceu o desejo de acertar.
O ausente estratégico – Está sempre “apanhado”, “em trânsito”, “noutra frente”, “a fechar um tema”. Nunca está onde a responsabilidade aterra, mas aparece milagrosamente quando há visibilidade, palco ou repartição de louros. Pratica uma forma refinada de omnipresença sem risco.
Assim vai a casa. Uns trabalham até ao desgaste, outros conspiram até à promoção, outros simulam até à reforma. A massa intermédia adapta-se como pode, aprendendo cedo a lição central de todas as organizações fatigadas: a de que o mérito isolado é frágil, a decência é pouco escalável, e a mediocridade, quando se organiza, adquire uma força histórica considerável.
No fim, toda a grande instituição acaba por parecer menos uma máquina racional do que um anfiteatro mal ventilado onde os diligentes carregam o projetor, os medíocres distribuem os documentos de apoio, os canalhas tratam da encenação e os parvos batem palmas ao próprio enterro. E por cima disto tudo, com ar grave e PowerPoint irrepreensível, flutua sempre a religião oficial da casa trazida pelo Grande Educador do Povo: a convicção comovente de que tudo isto se faz “em nome da excelência”.
Paulo Oliveira
31 de março de 2026
(Texto escrito com ajuda de substâncias gourmet pouco intoxicantes e um agente de IA)