Ou
(Pedido de) Pacto de Silêncio na CV da CC (Queriam!)
Completou-se recentemente mais um ciclo anual do Processo de Valorização, neste caso o correspondente ao ano de 2026. Essa tradição académica que os DDTs querem que exista mas que não deixe rasto. E muito menos infringir o artigo 103º do RJIES.
Este ano utilizou-se pela primeira vez o inovador modelo, como vos dei conhecimento em outubro de 2025: os processos são primeiro apreciados na mística Comissão de Vagas do CC (CV do CC), esse espaço quase esotérico frequentado exclusivamente por PCAs e ICs, onde se decide quais os concursos internacionais (supostamente) dignos de existir. Depois os Editais seguem para o Plenário do CC, onde ocorre o habitual ritual jurídico: alguns dos presentes passam subitamente ao estado vegetativo institucional — estão presentes, mas não podem falar nem votar. Uma espécie de “Schrödinger democrático.”
Recordo igualmente que, aquando da aprovação deste modelo, “todos os membros da oposição presentes se uniram e votaram contra”, com direito a plot twist inesperado: um membro da Lista M resolveu votar a favor. O resultado final foi 12-8, isto é 75% a favor. Em linguagem institucional houve “consenso robusto.” Em linguagem normal dos DDTs: “Ganhámos. Faça-se.”
Na altura partilhei convosco as minhas dúvidas existenciais:
Deixamos este processo, provavelmente ilegal, continuar a desenrolar-se periodicamente, e calamo-nos;
ou
Mexemo-nos, fazemos vir ao de cima as possíveis ilegalidades que se estão a cometer para serem corrigidas, mesmo correndo o risco de dar cabo desse processo?
Spoiler: escolhemos essencialmente a primeira, mas com algum desconforto moral passivo-agressivo.
Entretanto, recentemente, chegaram os números oficiais do balanço desse processo. Magnífica ferramenta estatística que transforma desconforto em tabelas, senão veja-se:
| Edição | 2026 | Total (22-26) |
| Manifestações de interesse | 34 | 246 |
| Com Early Go | 26 | 193 |
| Sem Early Go | 8 | 49 |
| Avanço p/ CC sem Early Go | 0 | 4 |
| Análise CC positiva | 21 | 181 |
| Dossiers repescados | – | 3 |
| Contratações esperadas | – | 148 |
| Contratações inesperadas | – | 8 |
A minha posição pode ser explicada de forma relativamente simples: concordo com o processo em cerca de (181/246 =) 74% dos casos. O problema é aquele pequeno detalhe chamado “os outros 26%.” Em 2026 a taxa de conforto caiu para (21/34=) 62%, o que em unidades académicas corresponde aproximadamente ao momento em que alguém começa a usar expressões como “tenho algumas reservas.”
Mas houve mais…
Na reunião da CV do CC denunciei um caso de falha miraculosa na classificação de excelência e respetiva aceleração temporal do processo de valorização. Coincidentemente — certamente coincidência cósmica — os relatores escolhidos para acompanhar o caso pertenciam ambos à Lista T. Denunciei também, nesse caso, episódios de pressão elegante sobre o proponente do processo. Nada explícito, claro. Apenas várias conversas discretas, em modo “pé de orelha,” conduzidas ao longo de dias por catedráticos experientes na arte ancestral do “era melhor reconsiderar.”
O colega, recém-chegado ao IST e provavelmente ainda com esperança na humanidade, retirou o processo.
E agora a melhor parte documental deste caso e de outros semelhantes:
Não ficou nada no drive do CC.
Nada no drive da CV do CC.
Nada no Connect.
Os DDTs lavam mais branco.
Continuamos também sem emails formais a comunicar os resultados. Não esquecer que transparência excessiva pode causar efeitos secundários administrativos. Em compensação, fomos informalmente aconselhados a manter “reserva” sobre processos, atas, nomes e decisões. Uma espécie de Fight Club universitário:
“A primeira regra da CV do CC é: não se fala da CV do CC.”
É assim uma espécie de reserva institucional. Eu prefiro chamar-lhe “pacto de silêncio premium”.
O mais extraordinário é o esforço quase artístico para evitar deixar documentação comprometedora… enquanto os documentos de descrição dos termos do Processo de Valorização continuam alegremente publicados no site do CC e no Connect. O gato não tem só a cauda de fora. Neste momento o gato já espreita e pede ração.
Naturalmente, os processos retirados sob pressão aumentaram discretamente o denominador estatístico, mantendo-se o numerador, i.e. os aprovados, fazendo descer ainda mais a percentagem de aprovação do processo. Assim se aplica a estatística à ocultação.
Entretanto, o conselheiro Pedro Ferreira dos Santos ouviu comentários no Plenário relativos ao possível candidato associado a um Edital. Desde então começou a votar contra todas as atas relacionadas com editais e acrescentou declarações de voto a explicar, preto no branco, porque considera o processo incompatível com o RJIES e os Estatutos do IST[1].
Mais importante ainda: declarou publicamente não perceber como aquelas atas tinham chegado ali. Ou seja, o gato sentou-se à mesa e pediu minutos da reunião. E deixa tudo cheio de pelos. Os DDTs não estão a gostar.
Darei notícias futuras à medida que o enredo administrativo evoluir para novos episódios de:
Game of Vagas: The Silence Pact
Paulo Oliveira
11 de maio de 2026
[1] Por exemplo: https://conselhocientifico.tecnico.ulisboa.pt/files/sites/47/ata-cc-2026-08-de-25-de-marco.pdf