(Epopeia hidro-burocrática em dois atos e várias purgas)
Houve recentemente, nesta mui vetusta instituição de ensino superior, uns pequenos episódios microbiológicos. Ocorrências discretas. Quase elegantes. Daquelas que se resolvem com meia dúzia de emails, umas quantas purgas diárias e uma dose industrial de tranquilização administrativa. Felizmente, sem consequências nefastas para as vidas dos humanos envolvidos. Mas com risco!
Tudo começou com um daqueles emails que representam o auge da literatura técnico-burocrática contemporânea: longos, polidos, cheios de “cumpre-me informar,” “níveis de risco baixos” e “salvaguarda da saúde pública,” escritos naquele tom clínico e paternalista que basicamente significava: “Existe uma bactéria potencialmente perigosa na água quente de uma parte do edifício, mas agradecemos que mantenham a calma e continuem a lavar as mãos com confiança institucional.”
Ficámos então a saber que, numa torneira algures na Torre Norte, foi detetada Legionella spp. Não muita. Apenas 50 ufc/L. Uma quantidade aparentemente suficientemente pequena para não justificar preocupação, mas suficientemente grande para justificar:
- purgas diárias de 10 minutos,
- contra-análises,
- aumento do cloro residual,
- substituição urgente do equipamento,
- e a pequena nota com explicação técnica de que o sistema operava a cerca de 35 ºC, precisamente a temperatura ideal para a proliferação da bactéria.
Mas atenção: risco baixo.
É extraordinária esta capacidade moderna de transformar qualquer problema potencialmente grave numa experiência quase zen através da terminologia regulamentar adequada. O Titanic, se tivesse a gestão académica contemporânea dos DDTs, provavelmente teria afundado ao som de um comunicado interno: “Importa salientar que a maioria das áreas do navio permanece seca, enquadrando-se o incidente num cenário de humidade localizada de baixo risco.”
Curiosamente, cerca de 48 horas antes do email oficial, um aluno já nos tinha alertado que havia um problema sério com a água. O que revela, uma vez mais, a superior sensibilidade e rapidez dos mensageiros humanos relativamente aos canais institucionais formais. Entretanto, confrontado o gestor do edifício em causa, em ambiente quase diplomático e acompanhado pelo orientador do aluno, surgiu um esclarecimento sucinto, daqueles que pertencem ao género literário “sim, houve qualquer coisa, mas está controlado.”
Pouco depois apareceu o grande email tranquilizador. Coincidência, certamente. Os utilizadores diretamente afetados foram avisados. Os restantes alunos, funcionários e docentes que usam por vezes o espaço? Esses… não!
E aqui reside uma das mais refinadas tradições administrativas desta casa: a gestão terapêutica da ignorância. Porque informar toda a comunidade poderia gerar preocupação. E preocupação gera perguntas. E perguntas geram reuniões. E reuniões podem gerar atas. E atas são perigosíssimas.
Assim, opta-se frequentemente pela mais eficiente metodologia de gestão emocional existente na administração moderna:
“Se ninguém souber, ninguém fica stressado.”
Uma abordagem quase quântica da saúde pública.
Mas o verdadeiro espanto surgiu esta semana, na sessão do Plenário do Conselho Científico, aquando da apresentação do Relatório de Sustentabilidade IST 2025. Um documento bem estruturado. Rico de informação. Muito verde. Muito “o futuro sustentável começa hoje.” Encontra-se em https://tecnico.ulisboa.pt/files/2026/05/relatorio-de-sustentabilidade-ist-2025.pdf

Apresentado pelo Vice-Presidente do IST para a Sustentabilidade e Infraestruturas, o relatório transpira aquele otimismo corporativo cor-de-rosa segundo o qual tudo está melhor, mais eficiente, mais resiliente e alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Até chegarmos ao consumo de água. 71 476 m³ em 2025, um aumento de 18% face ao ano anterior. Conforme acetato 6, reproduzido acima.
Uma pequena barragem hidrográfica académica.
Perante algum espanto geral, porque a sustentabilidade normalmente não inclui esvaziar aquíferos urbanos, surgiu então a explicação do DDT de serviço:
“Ah… foi o problema da Legionella na Torre Sul. Tivemos de esvaziar o depósito.”
E assim, com a serenidade burocrática de quem comenta uma avaria numa máquina de café, descobriu-se que se tinham despejado um total de cerca de 12 865 m³ de água por causa de um episódio sanitário de dimensões, aparentemente pouco compatíveis com o conceito original de “situação controlada.”
O Rádio Alcatifa não teve nenhum repórter no local. Eu não sabia até aquele momento. E vários outros colegas conselheiros também não. Mas provavelmente isso fazia parte da estratégia de bem-estar ocupacional. Porque nesta instituição os DDTs, afinal também Grandes Gestores da Tranquilidade Pública, protegem-nos cuidadosamente do fardo psicológico da informação. Não querem que saibamos demasiado. É para nosso bem. A ignorância, nesta filosofia de gestão, não é ausência de transparência. É ergonomia emocional. Há que reconhecer coerência ao modelo.
Nesta casa, o ar por vezes é irrespirável. Agora a água também não se aconselha!
Trabalhar começa a parecer uma atividade de sobrevivência ambiental progressivamente mais exigente.
Mas sempre com baixo risco!
Paulo Oliveira
21 de maio de 2026