O termo merdificação é a tradução livre do termo anglo-saxónico enshittification, introduzido pelo escritor e ativista Cory Doctorow para descrever a situação atual usada pelas grandes empresas de prestação de serviços (Internet, redes sociais, redes de entretenimento, etc). Acredita que as plataformas procuram o lucro, não a qualidade [4]. Portanto, após uma fase inicial de lançamento de serviços de grande qualidade, as empresas são geridas de forma que os serviços vão-se degradando, os clientes vão sendo menos bem servidos, mas o lucro gerado vai aumentando.
A merdificação das universidades descreve a degradação do ensino superior devido a semelhantes lógicas neoliberais. Este fenómeno manifesta-se pela transformação das universidades em empresas de serviços, onde os estudantes são tratados como clientes que exigem um diploma e os professores são sobrecarregados com burocracia e exigências de publicação de artigos em massa, em detrimento da verdadeira qualidade pedagógica e investigação [1, 2]. Também os professores são fortemente incentivados à captação de avultadas quantias de financiamento (competitivo ou não), com o objetivo de contribuírem com os overheads dessas iniciativas para o deficiente orçamento público. Os DDTs vão adaptando modelos de gestão cada vez mais lucrativos, e.g. Técnico+.
De acordo com [1, 3], os principais pilares deste processo incluem:
- O Modelo Credencialista: Os alunos encaram o curso como um produto transacionável. O objetivo principal passou a ser a obtenção do canudo (credencial) para o mercado de trabalho, em vez da apropriação profunda de conhecimento crítico e científico.
- Burocratização e Métricas: A academia passou a focar-se na produção em massa de artigos científicos e na caça a financiamentos, forçando os docentes a priorizar a quantidade sobre a originalidade ou a relevância social e científica.
- Precarização do Corpo Docente: A contratação de investigadores sob condições precárias, o aumento do número de PDECs no Técnico e a criação de uma “fábrica de publicações” retiram tempo e dignidade ao trabalho intelectual artesanal.
Este debate tem sido discutido na academia portuguesa, refletindo a preocupação global com a perda de autonomia e o fim do propósito humanista das universidades.
Esta degradação manifesta-se em três pilares fundamentais do ecossistema académico.
1. A Publicação Científica
A comunicação científica deixou progressivamente de funcionar como uma economia de dádiva intelectual, baseada na partilha de conhecimento e no avanço coletivo da Ciência, para se transformar numa indústria extremamente lucrativa, cujas margens de lucro rivalizam com as das grandes empresas tecnológicas.
- Mercantilização do valor científico: o mérito intelectual e a relevância científica são cada vez mais subordinados à lógica de mercado, à capacidade de gerar receitas e à visibilidade comercial.
- Pagar para publicar e proliferação de revistas predatórias: observa-se um crescimento contínuo das taxas de processamento de artigos (Article Processing Charges – APCs), tanto em revistas de acesso aberto como em muitas publicações convencionais, obrigando os investigadores a suportar custos frequentemente elevados para divulgarem o seu trabalho. Em paralelo, multiplicam-se revistas predatórias que exploram a pressão para publicar, oferecendo processos editoriais de reduzido ou inexistente rigor científico.
- Erosão do processo de revisão por pares: o volume crescente de artigos submetidos, amplificado pela existência de «fábricas de artigos» (paper mills) e pelo uso indiscriminado de ferramentas de inteligência artificial generativa, sobrecarrega o sistema de revisão por pares, reduzindo a sua eficácia e comprometendo a integridade da produção científica.
2. A Experiência Estudantil
As universidades tendem cada vez mais a funcionar como prestadores de serviços corporativos, tratando os estudantes como clientes e os cursos como produtos transacionáveis, frequentemente em detrimento da qualidade formativa.
- Aumento de custos e redução de serviços: os estudantes suportam propinas e encargos cada vez mais elevados, recebendo em contrapartida um acompanhamento mais reduzido (veja-se no NME, a redução do número de horas de contacto), com turmas massificadas, menor interação individualizada e crescente dependência de docentes convidados ou especialmente contratados (PDECs), precários ou insuficientemente remunerados.
- Microcredenciais e ensino digital de baixo custo: programas assíncronos, cursos de curta duração e microcredenciais são frequentemente promovidos como novas fontes de receita de elevada margem financeira (e.g. Técnico+), substituindo progressivamente percursos formativos longos, integrados e intelectualmente exigentes.
3. A Degradação das Condições de Trabalho dos Docentes e Investigadores
Os académicos enfrentam uma crescente pressão operacional e burocrática, que desvia recursos e tempo das suas missões fundamentais de ensinar, investigar e produzir conhecimento original.
- Empolamento administrativo: a expansão contínua das estruturas administrativas, dos mecanismos de controlo e dos requisitos regulamentares consome uma parcela crescente do tempo dos docentes e investigadores, ao mesmo tempo que aumenta significativamente os custos institucionais.
- A tirania das métricas do «publicar ou perecer»: a normalização de modelos de avaliação baseados em indicadores quantitativos e rankings bibliométricos incentiva a produção em massa de publicações, favorecendo a quantidade em detrimento da qualidade, da originalidade e da relevância científica ou social do trabalho desenvolvido. O RADDIST é um bom exemplo dessa abordagem.
- Trabalho não remunerado: os académicos oferecem gratuitamente enormes quantidades de trabalho às editoras comerciais, desempenhando simultaneamente os papéis de autores, revisores e editores. Paradoxalmente, as próprias universidades acabam depois por pagar valores elevados para aceder, através de subscrições e licenças, aos resultados desse trabalho produzido sem remuneração.
Como Contrariar esta Tendência
A recuperação da missão fundamental da universidade exige mudanças profundas, tanto a nível institucional como global. Entre as medidas possíveis destacam-se a reforma dos sistemas de avaliação da investigação : i) privilegiar qualidade, impacto e originalidade em detrimento de meras contagens bibliométricas, ii) apoiar modelos de publicação liderados pela comunidade académica, como o Acesso Aberto Diamante (Diamond Open Access), e iii) forçar a contenção do crescimento desproporcionado das estruturas administrativas e dos seus custos.
Em última análise, a universidade corre o risco de se transformar numa organização paradoxal: os estudantes pagam para aprender menos, os profissionais que pretendem formação pos-graduada pagam mais para aprender menos, os investigadores publicam mais para descobrir menos, os docentes trabalham mais para ensinar menos e as instituições administram-se cada vez mais para produzir cada vez menos conhecimento significativo. É precisamente este processo de merdificação do ensino superior que ameaça converter a universidade de uma comunidade de saber e pensamento crítico numa mera fábrica de credenciais, métricas e procedimentos administrativos.
Paulo Oliveira
16 de junho de 2026
Referências:
[1] Paulo Castro Seixas, Credencialistas e merdificação do ensino superior, Observador, 11 de junho de 2026, in https://observador.pt/opiniao/credencialistas-e-merdificacao-do-ensino-superior/
[2] João Aldeia, O animal laborans académico e o fim da universidade, 31 de julho de 2025, in https://www.barometro.com.pt/2025/07/31/o-animal-laborans-academico-e-o-fim-da-universidade/
[3] Martina Linnenluecke, Carl Rhodes, The 5 stages of the ‘enshittification’ of academic publishing, 6 de janeiro de 2026, in https://theconversation.com/the-5-stages-of-the-enshittification-of-academic-publishing-269714
[4] Claudia Carvalho Silva, Merdificação” em curso: porque é que a Internet está pior, 19 de Novembro de 2025, in https://www.publico.pt/2025/11/19/p3/entrevista/merdificacao-curso-internet-pior-2155061
16 de junho de 2026