ou
Produzir Engenheiros Funcionais com a Autonomia Cognitiva de uma Torradeira Inteligente
Durante séculos, a humanidade acreditou ingenuamente que a escola servia para ensinar jovens a pensar. Era uma visão romântica, antiquada e profundamente ineficiente. Felizmente, chegámos à era moderna, onde um estudante pode atravessar o ensino secundário, concluir uma licenciatura, fazer um mestrado e talvez até um doutoramento, sem nunca sofrer o incómodo medieval de ter uma ideia própria.
A Inteligência Artificial veio democratizar algo absolutamente extraordinário: a possibilidade de parecer inteligente sem os custos energéticos associados ao pensamento.
O aluno contemporâneo já não precisa:
- de compreender,
- de estudar,
- de memorizar,
- de relacionar conceitos,
- nem sequer de ler o que entrega.
Precisa apenas de dominar uma sofisticada competência de engenharia contemporânea: escrever “faz-me um resumo disto em tom académico mas acessível.” E convenhamos isto é progresso civilizacional.
No passado, um estudante de engenharia perdia noites a tentar perceber porque divergia um controlador, porque explodia uma simulação numérica ou porque o modelo físico violava causalidade básica. Hoje, graças à IA, pode gerar instantaneamente 14 páginas de relatório impecavelmente formatado, com introdução, revisão bibliográfica e até conclusões falsas mas redigidas com confiança absoluta. O estudante não percebe rigorosamente nada daquilo que entregou. Mas também sejamos honestos, muitos orientadores já não leem muito além do resumo executivo e da qualidade das figuras.
Criou-se assim um ecossistema académico de enorme eficiência:
- a IA escreve trabalhos que ninguém lê;
- para avaliações feitas por docentes exaustos;
- em instituições onde o PowerPoint vale mais que a substância;
- e onde o verdadeiro indicador de excelência científica é o alinhamento justificado do texto.
A beleza do sistema está precisamente nesta “economia circular” perfeita.
Os efeitos cognitivos começam cedo. O jovem estudante, habituado a consultar IA para tudo, desenvolve gradualmente uma relação muito delicada com o próprio cérebro: evita usá-lo para não o cansar.
Porque pensar dói.
Pensar implica silêncio, frustração, dúvida, reformulação, erro e outras atividades profundamente incompatíveis com o ritmo moderno do TikTok cognitivo. A IA surge então como uma espécie de exoesqueleto intelectual para o aluno contemporâneo. Um aluno que já não quer saber a resposta; quer apenas evitar o desconforto entre a pergunta e a resposta.
E assim nasce a nova criatura académica do século XXI: o Homo Prompticus.
O Homo Prompticus possui características fascinantes: i) Escreve fluentemente sobre temas que desconhece, mas também não se preocupa; ii) Usa expressões como “paradigma epistemológico multidisciplinar” sem pestanejar. Não sabe extamente o que quer dizer mas soa bem; iii) Consegue produzir 400 linhas de código MATLAB que não compreende nem sabe modificar o nome de uma variável; e iv) entra em colapso psicológico se o Wi-Fi falha durante mais de 3 minutos.
Sem IA por perto, a criatura torna-se vulnerável. Observa-se frequentemente:
- olhar vazio;
- tremores ligeiros perante folhas em branco;
- incapacidade de iniciar um parágrafo sem assistência algorítmica;
- e episódios de ansiedade aguda quando obrigada a “explicar por palavras suas.”
Alguns estudantes chegam ao ponto de perguntar:
— Professor, no exame vamos poder usar pensamento autónomo assistido?
As universidades, naturalmente, fingem que nada disto está a acontecer. Como qualquer instituição madura, responderam à maior revolução educacional em décadas através da criação de:
- uma comissão,
- três grupos de trabalho,
- um regulamento provisório,
- um seminário sobre ética,
- e um PDF institucional, na cor da moda, intitulado “IA: desafios e oportunidades.”
Problema resolvido!
Entretanto, os exames continuam desenhados para um mundo onde se assumia, de forma ingénua, que o estudante era efetivamente o autor dos trabalhos que submetia. A situação atingiu níveis tão sofisticados que hoje há casos em que: a) a IA escreve o relatório do aluno; b) o professor usa IA para corrigir; c) o coordenador usa IA para gerar feedback institucional; e d) o estudante usa IA para interpretar o feedback da IA do professor.
A única entidade completamente excluída do processo é o cérebro humano.
Mas talvez o efeito mais cómico — e simultaneamente mais trágico — seja a destruição progressiva da autoconfiança intelectual. O estudante deixa de confiar na própria capacidade de raciocinar. Mesmo quando sabe, já não acredita que sabe sem validação algorítmica. Forma-se assim uma geração inteira de jovens altamente certificados mas cognitivamente terceirizados.
São capazes de:
- gerar apresentações brilhantes,
- criar gráficos magníficos,
- produzir abstracts impecáveis,
- usar palavras como “framework”, “robustez” e “sustentabilidade” em sequência,
mas entram em sofrimento existencial profundo quando alguém lhes faz uma pergunta oral inesperada.
O futuro profissional promete momentos deliciosos.
Imagine-se:
- um engenheiro incapaz de diagnosticar uma falha sem consultar o chatbot;
- um médico em pânico porque o hospital ficou sem internet;
- um gestor que precisa de IA para escrever “bom dia” em tom assertivo;
- ou um doutorado em controlo incapaz de explicar intuitivamente o significado físico de um pólo dominante.
Será uma civilização magnífica: hiperconectada, ultraassistida, tecnologicamente brilhante… e intelectualmente incapaz de montar uma linha de raciocínio contínua sem autocomplete semântico. No fundo, a IA não destruirá necessariamente a inteligência humana. Limitar-se-á talvez a revelar quantas pessoas estavam apenas à espera de autorização tecnológica para parar de pensar de vez.
Paulo Oliveira
27 de maio de 2026